O
Catalaxia e o
Bloguítica Nacional tomaram a iniciativa de iniciar um importante debate sobre o ensino superior privado, que aliás teve um excelente
pontapé de saída com a história do movimento universitário particular e cooperativo feito pelo Catalaxia. A esse enunciado histórico não tenho grande coisa a acrescentar para além da concordância, pelo que me limito a deixar meia dúzia de notas muito adjacentes:
- O fim da Universidade Livre marcou o início da decadência do ensino superior privado português. Se o projecto universitário da Livre tivesse persistido no tempo, não só não estaríamos por certo hoje a ter esta discussão, como seria certo que a Livre estaria a discutir com a Católica o
top do
ranking. Ainda hoje merecem reconhecimento no mercado de trabalho os licenciados da Livre, já para não falar dos inúmeros assistentes universitários hoje existentes e nela formados.
- Os anos 90,conforme bem diz o Catalaxia, marcaram uma nova oportunidade perdida para as privadas, que poderiam de facto ter encostado à parede os titulares da pasta da educação. Ainda assim, nesse auge do ensino superior privado, não só não se aproveitaram as oportunidades como a imagem pública destas instituições levou nova machadada com o célebre e sinistro caso dos .dois reitores. que animou a comunicação social e atacou a Autónoma. Foi um caso que vivi muito de perto e que de certo modo espelha na perfeição alguns dos problemas historiados pelo Catalaxia. A incomparável novela da Moderna foi, no aspecto da imagem pública, o golpe final. Como é evidente, ninguém se recorda, quando comparadas com estas historietas, das significativas evoluções que o ensino privado conseguiu nestes mesmos anos. Funciona aqui o marketing negativo.
- Permito-me ter, por fim, reservas quanto ao estado moribundo da Internacional, que é aquele em que, de facto e mais do que aparentemente, se encontra. No entanto, o
diz que disse que também marca este pequeno país dá-me conta da recente venda da SIPEC,SA - a entidade instituidora da UI - a uma instituição de respeito, ainda que por via indirecta:
vendo-vos isto pelo mesmo preço que me venderam a mim. Mas no caso da UI, é bom notar que é um verdadeiro
case study de sucessivos erros: desde a compra de um edifício enorme em sítio absolutamente inadequado ao fim do acordo com a Gama Filho. Já para não falar do ensino politécnico que integrava a Internacional, e que foi certamente o exemplo mais bem sucedido em Portugal nesta área, a começar por um curso de Gestão Hoteleira que dava cartas nesse tipo de mercado. Talvez por se tratar de uma sociedade anónima e não de uma cooperativa, as acções da SIPEC sempre foram vendáveis, mesmo quando o prestígio da UI era já nulo. Talvez isto explique a teoria defendida pelo Catalaxia, segundo a qual
o pecado original do ensino superior privado português foi, sem dúvida, a imposição do modelo cooperativo para a sua organização empresarial.
Para além destas notas, considero como grave que as privadas tenham perdido de facto a oportunidade de se tornar verdadeiramente alternativa a um ensino superior público comprometido e também ele moribundo, nomeadamente através da (não) criação de bibliotecas de referência, nichos de mercado e actividade editorial. Passe a falta de humildade, orgulho-me de enquanto dirigente associativo, ter contribuído para lançar publicações com a chancela da UAL, e logo com um excelente volume do Professor Justino Mendes de Almeida versando temas de Cultura Portuguesa. E considero igualmente de relevo a falta de associação entre o ensino superior privado e as áreas da formação de médicos e engenheiros, sendo certo que se hoje não há médicos formados por universidades privadas tal não se deve à ausência de projectos apresentados junto da Tutela, o que de certo modo contraria a ideia deixada pela
Janela para o Rio de que prevalecem os cursos de caneta e papel. Prevalecem, é certo, mas porque nunca o Estado deixou aos privados outra prevalência.
Talvez mais grave tenha sido, durante o início da década de 90, a ausência de aposta numa efectiva acção social escolar para os estudantes do particular e cooperativo. E neste caso, se as universidades terão a sua culpa, não é de menos referir que os seus estudantes são os principais responsáveis. Os dirigentes associativos do ensino superior privado, ao tempo mais preocupados com a solidariedade para com os "camaradas do ensino público" na luta contra a instituição das (justas) propinas, deram forte impulso às desvantagens competitivas do superior privado. Faziam política sem pensar na educação dos vindouros.
Inevitavelmente, os tristes números do (não) crescimento demográfico fizeram o resto, nos termos correctamente descritos pelo Bloguítica Nacional. Segundo dados da estrutura representativa das universidades privadas,
a situação mudou, por factores demográficos, acentuados pela alta taxa de abandono escolar antes do 12ª ano (46%). Nos últimos três anos diminuiu em cerca de 20000 o número de alunos do ensino básico e secundário. Só neste último ano lectivo, de 2001/02, houve uma quebra de 7%, ou seja cerca de 3000 alunos, no número de estudantes que concluiram o 12º ano. Com esta tendência, prevê-se uma diminuição de passagens do 12º ano para o ensino superior de cerca de 16600 entre 1995 e 2005. Enquanto que o Norte manterá alguma estabilidade da população entre os 18 e 24 anos, a região de Lisboa sofrerá uma grande queda, da ordem dos 43%, seguida do Alentejo e Algarve, com quebras da ordem dos 30%. A região Centro mostra uma tendência intermédia, com uma diminuição de cerca de 23%.
Posto isto, resta-me dizer que se concordo com os problemas apontados pelo Catalaxia, não deixo de concordar com o estado menos pessimista do Bloguítica Nacional. Desde logo porque o valor das propinas do ensino superior público tende a diminuir a distância em relação às privadas, pelo que se estas verdadeiramente apostarem na qualidade e na formação dos seus quadros docentes, haverá certamente lugar à possibilidade de escolha em função da qualidade do ensino (e nada me diz, pelo contrário, que essa qualidade seja superior no ensino público). As propinas, esse .não custo., são afinal de contas o que determina a maior apetência pelas públicas. Se essa diferença se esbater, haverá lugar naquelas cabeças para pensar qual é de facto o melhor ensino. E apesar das dificuldades, é bom notar que algumas privadas apresentam números de respeito: Em 2003, a UAL conta com cerca de 6000 alunos e 420 professores - mais de 200 com o grau de Doutor e Mestre.
Não posso deixar de comentar uma nota que entretanto vejo que foi deixada pelo
Virtualidades: a de "fechar vagas em cursos sem futuro". Sempre fui contra esta ideia. Não devemos tomar os estudantes universitários como uns rapazitos que não sabem ao que vão. E se não sabem, deviam saber. Se não há empregos para os licenciados em História ou em Filosofia, será que o melhor caminho é fechar a porta ao acesso a esses cursos? E se eu os quiser tirar por mero prazer pessoal e intelectual, ainda que disposto a pagar a propina e não arranjar emprego? Estou inibido? E pergunta ainda o Virtualidades: Se precisamos de 1000 médicos e 10 professores, porquê formar 1000 professores e 10 médicos? E digo eu: porque não formar 1000 professores e 1000 médicos? Mal não faz, que o saber não ocupa lugar.
Para uma outra oportunidade deixo a pergunta, pertinente, do Bloguítica Nacional: Faz sentido a intervenção do Estado como fornecedor de ensino superior? Lá liberal eu não sou, mas que esta pergunta, na espuma dos dias, dá que pensar... dá.
(parece-me oportuno dizer que estudei em quatro universidades: no âmbito da licenciatura, frequentei a Internacional e a Autónoma . onde me licenciei e até tive
este simpático senhor por professor; no âmbito do ensino pós-universitário, passei por duas públicas, a de Direito e a de Letras de Lisboa. A bem da verdade devo dizer que se a de Letras me deixou boa impressão, nunca vi coisa tão manhosa como a Faculdade de Direito, a começar por
copianços inacreditáveis em qualquer privada. Curiosamente, os
privados tinham melhores notas sem usar os métodos que usavam os da casa. Acrescento ainda que em tempos fui convidado para dar aulas numa universidade privada, curiosamente por um conhecido
blogger. Recusei o convite porque achei (e acho) que não nasci para isso, detesto falar em público, não tenho jeito... Sem falsas modéstias, o ensino superior estaria mais bem servido se todos assumissem estas debilidades)