Sexta-feira, Outubro 31, 2003

Serviços mínimos

Não subsiste dúvida. É certamente determinação da Lei de Murphy que na exacta semana em que este Último Reduto contabilizava mais de cem (100!) visitas diárias, todos os dias, o seu irredutível autor seja atacado por fortíssima dor de cabeça a que se junta uma constipação das antigas. Conspiração do tempo que passa... Não mais poderão esperar de mim que meia dúzia de ideias soltas e absolutamente desconexas, não necessariamente brilhantes, muito pelo contrário:
1. Importa saudar o Sexo dos Anjos pelos três meses de vida. Já não saberíamos viver sem a obrigatória visita diária ao recomendável local...
2. Caberia perguntar ao Ministério da Tutela a razão da ausência do Católico e de Direita dos nossos manuais escolares...
3. As dores de cabeça pedem livros curtos e suaves. Opto pela edição de um dos grandes e mais aplaudidos discursos de Pino Rauti, no tempo em que o MSI ainda o era: Perque' no all' aborto, 42 páginas de monumental doutrina declarada no hemiciclo romano e em devido tempo levada ao papel pela Raido - Associazione Culturale. Aproveitarei para "postar" algumas partes do discurso de Rauti em dias de melhor ânimo.
4. Folheando uma colecção já antiga e rara da "Revolution Europeenne", deparo com dois ou três slogans engraçados da francesíssima e já desaparecida Trosiéme Voie, mas que insistem em não perder actualidade: "Ni droite dollar, Ni gauche caviar", "En Europe la Turquie? Non, merci!" e "Au secours, l'Amérique est de retour".
5. Por último, e um pouco por via de ter este Último Reduto entrado para a zona de links do Descrédito na categoria de "extrema-direita", aliás muitíssimo bem acompanhado, penso qual a razão porque em Portugal não existem teses de mestrado e doutoramento - ou simples trabalhos "jornalísticos" de "investigação", por mais facciosos que sejam, sobre temas que noutros países europeus já teriam sido profusamente estudados:
- os "Viriatos", forças voluntárias portuguesas a combater na guerra civil espanhola do lado dos vencedores da dita cuja;
- uma história do "Nacionalismo-Revolucionário" (ou da "extrema-direita", classificação um bocado "selvagem", se se preferir) português de 1930 aos nossos dias, amplamente ilustrada. Estou em crer que não será por falta de editor e compradores...
6. Se o Pedro Sá, do já atrás mencionado Descrédito, encontrar cursos de linguajar croata a preço mais acessível, conte com este humilde reduto para, com assiduidade e grande interesse, se apresentar às aulas. Por estas bandas podemos entrar directamente para o nível 2.

Quinta-feira, Outubro 30, 2003

António José de Brito

O Professor António José de Brito, homem de ideias vincadas e convicções inabaláveis, filósofo e pensador de excelência, viu a sua obra ser lembrada na blogosfera, ontem, em lembretes do Sexo dos Anjos e da Nova Frente. Não conheço o Prof. Brito tão bem como os dois amigos anteriormente 'linkados'; mas conheço-lhe razoavelmente a obra, o que já não desabona em meu favor. Recordo-me de duas conversas que mantive, acompanhado de outros amigos, com António José de Brito, ambas em volta de jantares muito bem digeridos na sempre aconselhável Casa Branca, em Lavadores, Vila Nova de Gaia. Na primeira, em pleno restaurante, estava eu com o Miguel Castelo Branco na qualidade de dirigentes da Nova Monarquia, quando com o professor estabelecemos um curto e frio (mas interessante) debate sobre o transpersonalismo. Poucos anos mais tarde e antes do inevitável jantar no sítio do costume, tive o prazer de passar uma tarde inteira a ouvir o Prof. Brito em animada tertúlia na Brasileira do Porto; nessa ocasião, estavam também presentes Goulart Nogueira, Luis Fernandes, Correia de Barros e o saudoso Prof. Caetano Beirão, com quem nessa ocasião tive a última, mas inesquecível conversa. Também lá estava, na sua qualidade de impagável fascista, uma triste amostra de gente, a quem tinha dado nessa ocasião boleia e que entretanto vai buscando a glória fácil nas fileiras da Nova Democracia.

Quarta-feira, Outubro 29, 2003

Ainda (e sempre!) o Alcázar de Toledo

Com especial prazer vos digo que pelo caminho que a coisa leva, os verdadeiros "estudos sobre a guerra civil de Espanha" ainda acabam por ser feitos entre este humilde espaço e o excelente Católico e de Direita, já que os outros se limitam a dizer que o Franco se chamava Francisco, informação que há não muito tempo deitou por terra o Manuel Azinhal. Confesso que desconhecia em absoluto o texto de Gustavo Corção sobre a heróica epopeia da defesa do Alcázar de Toledo divulgado pelo Josephuscarolus. Atendendo a que palavra puxa palavra e dado que o saber não ocupa lugar, o texto citado sugere-me que toque em três pontos:
Desde logo, a fotografia altaneira: se o Católico e de Direita apresenta uma imagem magistral do edifício em toda a sua grandeza, eu permito-me deixar aqui a imagem dos ataques das forças republicanas às pessoas que se encontravam dentro do edifício. Ora atentem nas visíveis diferenças.



Para quem quiser aprofundar o conhecimento através da imagem, aconselha-se a visita a este site da Universidad de Castilla-La Mancha (atenção que não é nenhuma sinistra instituição facciosa, pelo menos que eu saiba) onde se podem ver muitos outros exemplares dos atentados.
Um segundo aspecto que me chamou a atenção no texto de Josephuscarolus foi a questão cinematográfica. A aventura da defesa do Alcázar de Toledo, não tendo de facto chegado a Hollywood - graças a Deus - conseguiu ainda assim chegar às salas de cinema. Trata-se de uma produção espanhola com ajuda italiana, de 119 minutos, datada de 1940 e realizada por Augusto Genina. A fita foi baptizada de .Sin Novedad en el Alcazar.. Creio que a última vez que foi exibida em Portugal terá sido no início dos anos 80, no velho cinema Nimas da avenida 5 de Outubro, por ocasião de uma visita a Portugal de Blas Piñar e nessa exibição terá está envolvido o saudoso António Lopes Ribeiro; é informação que tenho de ciência certa já que o meu santo pai foi um dos promotores da iniciativa. Ainda a propósito do filme, que tem como protagonistas principais Fosco Giachetti, Mireille Bain, Maria Denis e Andrea Checchi, pode dizer-se com alguma segurança que não é especialmente difícil de encontrar à venda em Espanha, em diversas edições VHS (eventualmente também em DVD.) que foram editadas ao longo dos tempos. Aqui ficam duas portadas de algumas dessas edições:




Por fim, a célebre conversa entre o chefe republicano (CR), o Coronel Moscardó (CM) e o filho deste último (LM). Não existe, tanto quanto sei, nenhuma reprodução do diálogo que se possa considerar categoricamente como sendo "a" verdadeira. Existe, em todo o caso, uma versão tendencialmente aceite como a mais aproximada da realidade, tanto por historiadores como por simples estudiosos interessados, fazendo fé nos relatos dos resistentes e da documentação militar existente. Esta versão, que a seguir transcrevo por ser ligeiramente diferente daquela citada por Gustavo Corção, reproduz então o telefonema recebido pelo Coronel Moscardó, no seu gabinete, às 10 horas da manhã do dia 23 de Julho:
CR - El Coronel Moscardó?
CM - Al aparato! Que desea?
CR - Soy el jefe de las milicias socialistas. Son ustedes los responsables de las matanzas y crímenes que están ocurriendo. Tengo la ciudad en mi poder y si dentro de diez minutos no se ha rendido usted, mandaré fusilar a su hijo Luis, al que he detenido. Y para que vea que es así, él mismo le hablará. A ver: que venga Moscardó!
LM - Papá! Como estas?
CM - Bien, hijo mio. Que te ocurre?
LM - Nada de particular. Que dicen que me van a fusilar si el Alcázar no se rinde; pero no te preocupes por mi.
CM - Mira, hijo mio; si es cierto que te van a fusilar, encomienda tu alma a Dios, da un Viva Cristo Rey! Y otro Viva España! Y muere como un héroe. Adios, hijo mio; un beso muy fuerte.
LM - Adiós, papá; un beso muy fuerte.
CM - Puede ahorrarse el plazo que me ha dado, puesto que el Alcázar no se rendirá jamás
!

Era, como se vê pela pequena amostra, bastante simpática esta malta da esquerda libertadora.
Uma coisa é certa: se eu e o Josephuscarolus nos apresentássemos a prova de mestrado ou doutoramento em História Contemporânea na escolinha do Prof. Fernando Rosas, não só ninguém nos publicava a tese, como estávamos condenados a um chumbo redondo.

Terça-feira, Outubro 28, 2003

São Bastonário da Carta Aberta

É o título de um lembrete para memória futura em boa hora publicado no Nova Frente. Nele se fala do ex-José Miguel Júdice, ilustre e actual bastonário da Ordem dos Advogados e que partilhava a mesma estrada de alguns dos meus camaradas da mesma idade que tiveram a particularidade de não mudar entretanto de ideias (e consequentes proveitos). Por ali se descreve uma pequena obra, lamentavelmente difícil de encontrar, que constitui notável antologia de José António Primo de Rivera. Não vá dar-se o caso de alguém duvidar da sua existência, apregoada pelo BOS, aqui fica a capa do livro, em devido tempo (1972) levado à gráfica pela Cidadela, na cidade de Coimbra. Quanto a excertos, que se guardem para o próximo dia 20 de Novembro.


Eles até colam cartazes na via pública!

No Público desta segunda-feira pode ler-se - e ainda bem - uma não-notícia sobre o PNR - Partido Nacional Renovador, que é, como se sabe, o único partido português à direita do PCP com coerência ideológica e projecto político próprio. A prosa é assinada pela nossa velha conhecida Maria José Oliveira, uma jornalista que tem um blogue que explica em grande parte as motivações com que escreve na imprensa dita de referência. Para além de se constatar que é possível escrevinhar umas linhas num qualquer jornal tido como relevante sem se saber patavina daquilo de que se está a falar, imaginando conspirações sinistras, o texto do Público, indignado e furibundo, diz-nos que os rapazes e raparigas do PNR colam cartazes em zonas de intenso movimento (calcule-se a falta de vergonha!!! - deviam colar apenas cartazes nas catacumbas do Hotel Vitória...) e, imagine-se, tais cartazes culminam com um inacreditável slogan: "A Família é uma prioridade nacional!"...
Tenho para mim que o grande problema existencial de Maria José Oliveira é que o Campo Pequeno ainda vai estando em obras... vai ter que ir pedir a táctica a outro sítio. Talvez ao túmulo do Estaline...

Segunda-feira, Outubro 27, 2003

O Alcázar de Toledo

Curiosamente, na página ao lado da que atrás citei, Bigotte Chorão fala-nos do Alcázar de Toledo, que tinha visitado três dias antes. Dos que ali sofreram e lutaram num exemplo quase único de heroísmo e valor, santidade e sacrifício, durante a guerra civil espanhola - a autêntica, que não a entretanto convenientemente revista.
Vem isto a propósito de ter deixado aqui passar - escandalosamente - em claro, nos últimos dias de Setembro, mais um aniversário da libertação do Alcázar. Quando o vejo, sinto as palavras de Bigotte Chorão que nele via um dos grandes santuários da Europa. Também a mim me sobe à garganta não sei que angústia ou que alegria selvagem.
A resistência desses setenta dias en el infierno, sob a responsabilidade do General Moscardó - alvo de todo o tipo de chantagens humanas incluíndo as mais nojentas que se possam imaginar, é como que um conto de aventuras, dos melhores, já levado ao papel em prosa, em verso e até mesmo em banda desenhada... Foi vivido por homens, mulheres e crianças que, durante setenta e um dias, deram o melhor de si em defesa da sua pátria e das suas convicções. Como escrevia Adela de la Granja, uma das sobreviventes desta epopeia anti-comunista nas páginas da revista Fuerza Nueva, só os mais crentes na sua verdade podem sentir el amor místico de aquellos niños que acudían a refugiarse al amparo de las madres al oírse más y más cerca el ruido de los estampidos. Não foi há muitos anos, mas é improvável que pudesse voltar a acontecer. Os valores do homem moderno estão mais virados para outras prioridades.
Setenta e um dias depois, foi possível ouvir em toda a Espanha o célebre: Mi General, sin novedad en el Alcázar.

Ainda Vintila Horia

Mais uma vez recorrendo a "O Reino Dividido", o diário (1969/75) de João Bigotte Chorão tão citado por estas bandas, encontro a páginas 29, referente ao dia 4 de Novembro de 1969:

Encontro Vintilia Horia cansado, depois das suas "viagens aos centros da Terra" e da sua recente visita aos Estados Unidos. Melancólica impressão de um país intoxicado pela droga e pela pornografia, de casas leprosas e de detritos abandonados, de racismo e de crime, e onde não há senão tempo para comprar e vender, vender e comprar.
Vintilia Horia profetiza para a Europa mais dez ou vinte anos... A Espanha será o último país a ceder à invasão de americanismo, porque é aquele que dispõe ainda de maior resistência moral. (na verdade, penso que uma obra como a do Vale dos Caídos, que ontem visitei, só na Espanha era possível - um templo assim desmedido, escavado na montanha, uma cripta que reúne e reconcilia no túmulo os inimigos, uma cruz a erguer-se, imensa, sobre o ateísmo do século)
.

Sábado, Outubro 25, 2003

Citação irrefutável do dia e válida para vários países

Se a esquerda e a direita se unirem [contra a Frente Nacional] é a prova de que eles comem do mesmo tacho.
Jean Marie Le Pen, no Expresso de hoje.

A Olivença, a perdida

Poema de António Sardinha, in Epopeia da Planície:

Fiel ao sangue, nossa irmã germana,
chora Olivença as suas horas más
junto do rio que tornou atrás,
quando soou a trompa castelhana.

Ó Casa de Antre Tejo-e-Guadiana,
lembra-te dela que entre ferros jaz!
Não a dobrou a guerra nem a paz,
- fiel ao sangue, o sangue a ti a irmana!

E todo aquele em quem ainda viva
o ardor da Raça e a voz que nele anseia,
se for p'ra além da raia alguma vez,

é Olivença, nossa irmã cativa
lá onde com surpresa a gente alheia
oiça dizer adeus em português!

Sexta-feira, Outubro 24, 2003

A minha alma está parva

Acabo de ler nos Caminhos Errantes que a última aventura de Harry Potter levada ao papel pela Editorial Presença vai ser lançada esta noite no... Panteão Nacional. Ora nem mais, meus caros amigos. Atordoados? Eu repito. No Panteão Nacional. Por momentos ainda fiz questão de manter alguma lucidez e acreditar que haveria qualquer equívoco. Deito mãos ao DN, que confirma o embate. Segundo leio agora, os responsáveis de marketing da Presença afirmam ter escolhido o local por ser um lugar pouco usado para este tipo de eventos. Ora aí está uma boa explicação. Sugiro que a Oficina do Livro aproveite a ideia e aí passe a promover lançamentos futuros de Margarida Rebelo Pinto ou mesmo do Meu Pipi... porque afinal de contas, este país já não se escandaliza com nada.

Ainda a revolta dos combatentes

Ainda a propósito da triste estória do Vice-Presidente da Liga dos Combatentes Lopes Camilo, recebo de Artur Craveiro Lopes uma mensagem - que agradeço - e que é mais uma ajuda para dar um ponto final a este triste episódio. O endereço de correio electrónico da Liga dos Combatentes fica à vossa disposição para que se faça justiça.

Tenho acompanhado as revelações de Walter Ventura em O Diabo sobre a presença de um indivíduo nefasto no cargo de vice-presidente da Liga dos Combatentes.
Pessoa amiga chamou-me a atenção para o blog do Último Reduto e pretendo prestar mais alguns esclarecimentos.
Vários antigos combatentes, entre os quais eu (alferes miliciano de infantaria, comissão de 26 meses em Angola), têm endereçado correio electrónico à Liga - ligacombatentes@iol.pt - a pedir a demissão de tal pessoa.
Além do núcleo de Cascais da Associação Nacional dos Combatentes do Ultramar, também a Associação dos Grupos Especiais e Grupos Especiais Paraquedistas se pronunciou, tendo pedido a exoneração de tal indivíduo, dando conhecimento ao Ministro da Defesa e ao Secretário de Estado dos Antigos Combatentes.
A direcção da Liga, talvez por uma solidariedade corporativa, ainda não se manifestou perante o escândalo, mas estranho a indiferença da tutela. Será que se perderam as cartas nalguma gaveta do Ministério da Defesa?
Do então capitão Lopes Camilo da comissão do MFA em Moçambique é de esperar
tudo o de mau que se possa imaginar, desde o alijar de responsabilidades assacando as culpas a terceiro, de preferência já falecido, à negação da realidade.
Curiosamente, como pode ser visto no Diário das Sessões, foi o deputado Jaime Gama quem se insurgiu contra o cativeiro dos antigos combatentes nos campos da FRELIMO. Nunca votei e nunca votarei no PS, mas não quero deixar de salientar essa atitude honrosa, mormente numa época bastante conturbada
.

Ensaio sobre o fim da nossa idade (II)

Já que estou com o livro aqui à mão, acho merecedor de referência que o primeiro capítulo do livro - A Cultura Circular - inicia-se com uma citação de Julius Evola, Mestre da Tradição, retirada de Orientamenti. Aqui fica:

É inútil criar ilusões com as quimeras de qualquer optimismo: encontramo-nos hoje no fim de um ciclo. Desde há séculos que, primeiro, insensivelmente, depois com a rapidez de uma massa que se desmorona, variados processos têm vindo a destruir no Ocidente todo e qualquer ordenamento normal e legítimo dos homens e a falsear as mais elevadas concepções do viver, do agir, do conhecer e do combater. E ao motor desta queda, à sua vertigem, à sua velocidade, foi chamado .progresso..
O que hoje conta é isto: encontramo-nos no meio de um mundo de ruínas. E o problema a pôr é este: existem ainda homens em pé no meio destas ruínas? E que é que eles podem e devem ainda fazer?

Ensaio sobre o fim da nossa idade (I)

Já por duas vezes aqui disse que, entre outras vantagens, o "Ensaio sobre o fim da nossa idade", de António Marques Bessa (Edições do Templo, Lisboa, 1978 - cuja capa reproduzo aqui em baixo), se iniciava com uma bonita dedicatória. Mas por certo motivados pelo que ontem se escreveu na blogosfera sobre Vintila Horia, especialmente aqui, sucede que dois amigos me pedem que a dê a conhecer. Cá vai, na esperança de que também a apreciem:

A Vintila Horia, o teorizador
A D. Andrès Rodriguez Villa, um 'caballero'
e a todos os meus camaradas que, sob as condições mais adversas, sempre tiveram na boca um poema de esperança para saudar a aurora solar
.

Quinta-feira, Outubro 23, 2003

Ferro para a sucata

Mais um contributo do nosso agente na zona de Alvalade, Duarte Branquinho, que nos faz chegar o seu pensamento do dia: Se o Ferro Rodrigues fosse treinador de futebol, há muito que já estava no olho da rua. Ora disso não tenho eu a mais pequena dúvida.
E escreve sempre, Duarte!

Serviço público

É o que fez hoje (ontem...) Manuel Azinhal, divulgando Vintila Horia e a sua obra traduzida em língua portuguesa. Estou certo que as mais novas gerações de Portugal não conhecem nem o homem nem a obra, e o que é mais grave, não sabem o que perdem. Notem ainda que por lá se fala de um pequeno livro de António Marques Bessa editado pelas saudosas Edições do Templo. Trata-se do "Ensaio sobre o fim da nossa idade" que permite tomar contacto (ainda para mais em poucas páginas!) com o pensamento de Vintila Horia (e não só). Já aqui tinha aconselhado este trabalho, que, como na altura disse, tem ainda para mais uma bonita dedicatória; mas nunca é excessivo recordar...
E já que o Manuel Azinhal estabelece a ligação com os exílios de Madrid, lá vou eu nos próximos dias em busca dos arquivos mais empoeirados, onde sei que constará, algures num antigo número da "Fuerza Nueva", um excelente texto de José Luis Jerez Riesco sobre Vintila Horia, o camponês do Danúbio, que valerá a pena dar a conhecer, ainda que em pequenas doses.

E por falar no Diabo...

Walter Wentura continua a lembrar à Tutela a justíssima indignação dos ex-combatentes por via da eleição do até aqui desconhecido Lopes Camilo para vice-presidente da Liga dos Combatentes. Quem apenas agora chegou a este Último Reduto e não conhece o personagem, faça o favor de se dirigir aqui.
Aos restantes, que já lhe conhecem minimamente a folha de serviços, dou conta não propriamente das novidades, mas da ausência delas - leia-se - da não actuação até ao momento do senhor Ministro da Defesa, que assim permaneceu por mais uma semana a pensar qual a melhor forma de chutar o Lopes Camilo para as fileiras do rendimento mínimo garantido.
Ainda assim, há um episódio que já mereceria ter sido contado aos meus escassos leitores: o dito Lopes Camilo, que como já foi dito prendeu e entregou ao inimigo sete militares portugueses (pelo menos), autorizou igualmente que o capitão dos grupos especiais dos páras, professor universitário e meu ilustre amigo (que muito me honra) Luís Fernandes, tenha sido interrogado em pleno Quartel-General de Lourenço Marques por um desertor da Força Aérea - Jacinto Veloso de sua graça - que entretanto havia "cavado" (termo que roubo ao original de Walter Wentura com a devida vénia) para a Tanzânia, surripiando igualmente um T6 da Força Aérea Portuguesa. Enfim, um cavalheiro de bem.

"Só à chapada!..."

É o título desta última terça-feira da colaboração semanal de Alberto João Jardim n'O Diabo. Num excelente artigo, tratando da inecraditável limpeza com que se limpou para debaixo do tapete o processo dos terroristas das FP 25 de Abril e pondo nomes aos bichos, lê-se a dado passo:

O Otelo e restante escumalha, praticaram os crimes provados. Estão amnistiados. Eu terei de responder por ter dito que a um adversário lhe "caiam os dentes de raiva"!...
Não é que isto me incomode. Mas é para todos verem "como vai este país". Como é a tal "justiça" e a "democracia" bufa em que nos querem fazer viver
.

Quarta-feira, Outubro 22, 2003

Política Espectáculo

A política é cada vez menos uma profissão dignificante. Tal qual a vemos nos nossos dias, converteu-se numa forma de preguiça. Quem não sabe fazer nada - faz política, intriga e agita-se pelo simples prazer lúdico de intrigar e de se agitar. Para fanfarronar. Para ostentar poder e influência e fazer negócios. Para ser conhecido pelos criados dos restaurantes e pelos arrumadores de carros.

Manuel Maria Múrias in revista Manchete, 1995.

A Minha Luta

O Bengelsdorff lançou a discussão sobre a proibição ou não de alguns livros e fê-lo começando com o debate concreto em relação ao célebre "Mein Kampf", de Adolf Hitler. Devo dizer desde já que tenho um exemplar do dito cujo que foi alvo do novíssimo lápis azul e que sou amigo dos dois destemidos editores portugueses; só para que conste. Em concreto, parece que o livro não terá sido retirado das livrarias (contra a vontade dos livreiros, é bom esclarecer, porque aquilo vendia que não era brincadeira nenhuma...) porque era "o livro", mas sim porque se tratava de uma edição que não continha nenhuma "advertência ao leitor", o que traduzido para português corrente significa, apenas, que o editor, neste caso a Hugin, não trata o leitor português como um imbecil. Aliás, a Hugin tem desde o seu nascimento o lema mais livros, mais livres. Mas também convém fazer notar que esta edição censurada da Hugin não é a primeira edição portuguesa do "Mein Kampf", nem sequer de livros de Hitler. Mais houve e continuam a vender-se lindamente em qualquer livreiro alfarrabista.
Quanto ao essencial do debate, faço minhas todas as palavras de Pacheco Pereira sobre o assunto. Acrescentando, é certo, que a proibição é tanto mais estúpida quanto é o género de livro que é facílimo descarregar em versão PDF, gratuitamente, de variadíssimos sites na internet, já para não falar na versão brasileira (e francesa) que está acessível em qualquer livraria portuguesa. E o "Mein Kampf" até se pode coleccionar por edições: qualquer pesquisa não exaustiva e um minimamente razoável cartão de crédito permitem comprar nas mais conhecidas livrarias virtuais um monte de diferentes edições da obra. A versão da Hugin, para já, vai-se especulando, a pipas de massa, às quintas-feiras, no Ocasião. Enfim: o que eles tentaram foi lixar a Hugin; não conseguiram. Fica para uma próxima oportunidade.

Terça-feira, Outubro 21, 2003

Comunicação presidencial

Meio mundo passou a tarde a noticiar uma grande comunicação presidencial vinda de Belém agendada para as vinte horas. Entusiasmado, e sempre pronto para ouvir com interesse o nosso Presidente, corro, à hora marcada, para o televisor. Segundos depois, noto com tristeza que afinal a imprensa não havia falado verdade: a última vez que o nosso Presidente fez uma comunicação ao país foi em 30 de Setembro, conforme comprova esta reportagem!

A fina flor do entulho

A blogosfera tem coisas curiosas. Já aqui tinha tocado nesse aspecto por alturas da morte de Leni Riefenstahl, mas a coisa continua a pregar estas partidas, especialmente se tivermos em conta os espaços dos bloggers mais falados (e mais lidos), os que, em consequência, por aqui ainda vão tendo mais responsabilidades perante a comunidade. Perguntarão a que propósito vem isto. Pois bem: vem a propósito da Catarina, que para quem não saiba era uma bebé de dois anos - mais quatro meses do que a minha filha - que foi violada e espancada até à morte em Ermesinde, Valongo.
Quase ninguém falou nisto, em parte por causa de razões já muito bem explicadas, por exemplo, aqui. Porque ir chafurdar na lama da justiça permissiva que temos e que permite que estas coisas sucedam é desagradável para os intelectuais e, no mais das vezes, lembra responsabilidades esquecidas no meio de tantas leituras e audições orgulhosa e desavergonhadamente anunciadas. São os mesmos que gozavam com os sentimentos dos que participaram na "marcha branca"...
A bem da verdade, acrescento que também li sobre o assunto aqui e aqui. Estes tipos devem ser uns populistas como eu... Eu, que há muito perdi o medo de falar nestas coisas, defendo sem qualquer vergonha a pena de morte para os autores deste tipo de crimes. Dois anos tinha a Catarina. Apenas mais quatro meses que a minha filha.
Fosse com a Filipa e viesse o primeiro troglodita falar-me na compaixão e no erro judiciário que levava logo duas berlaitadas na tromba. Os meliantes que cometem estes crimes, como diz o outro... são uns merdas. Esses, e não outros, é que de facto, são uns merdas.

Segunda-feira, Outubro 20, 2003

Vendaval confirmado (IV)

Por cá, quase ninguém deu ainda por nada. La victoire de la droite populiste ébranle le consensus helvétique. 20.10.2003 - 00:34

Comme en 1999, les sondages n'avaient pas prévu la très forte progression de l'UDC, pas plus que l'effondrement du PDC et l'effacement du PRD. Les démocrates du centre gagnent selon les projections une douzaine de sièges.
Les démocrates-chrétiens en perdraient 9 et les radicaux une demi-douzaine. (...)
L'UDC n'en est déjà plus à revendiquer un deuxième fauteuil au Conseil fédéral en proportion de l'importance relative de son nombre de sièges. Elle a dès
dimanche soir posé ses conditions: l'élection de Christoph Blocher ou l'opposition
.

Por aqui me fico em matéria de serviço público. Quem quiser acompanhar o vendaval helvético daqui em diante, faça o favo de seguir esta estrada. Vale a pena.

Quem fala assim não é gago

Na Grande Loja do Queijo Limiano deparo com uma declaração solene de Paulo Pedroso, jurada em entrevista ao programa "Grande Júri" da TSF, em 11 de Janeiro do corrente ano. Dizia o agora deputado e arguido:

O Partido Socialista entende claramente que a Drª Fátima Felgueiras só deve voltar a exercer as suas funções de Presidente de Câmara quando toda esta situação estiver esclarecida e se ela vier a ser declarada inocente.
Até ao cabal esclarecimento da situação ela não deve voltar a exercer o cargo. Se ganhar o recurso, devia suspender o mandato pela sua vontade.
Por muito doloroso que isso seja, eu separo o que tem a ver a responsabilidade política com a solidariedade pessoal
.

Visionário, escrevia o Rodrigo Emílio aqui há anos, numa "Epígrafe":
"Homem d'um só parecer,
d'um só rosto e d'uma fé",
d'outro tempo pode ser...
- Homem deste é que não é!

Domingo, Outubro 19, 2003

Vendaval confirmado (III)

Conforme aqui se previa ontem, vale a pena referir que neste preciso momento em que escrevo, os sites informativos cá do burgo não dedicam uma única linha ao vendaval eleitoral verificado na Suíça, esse país longínquo que como é sabido faz fronteira com o Quénia e a Nigéria e no qual não se dá conta de nele viverem quaisquer emigrantes portugueses; assim se compreende o desinteresse da imprensa lusa.
Já agora, é da mais elementar justiça referir que quem quiser tomar contacto mais directo com o vencedor das eleições - Schweizerische Volkspartei SVP / Union Démocratique du Centre UDC - pode visitar o seu sítio oficial na internet.

Vendaval confirmado (II)

Elections 03: Christoph Blocher est candidat au Conseil fédéral. 19.10.2003 - 19:14

ZURICH - Christoph Blocher est candidat à la succession de Kaspar Villiger au Conseil fédéral. Suite aux excellents résultats de l'UDC aux élections fédérales, son président Ueli Maurer revendique un deuxième siège au gouvernement.

Vendaval confirmado (I)

La droite populiste, premier parti du parlement suisse. 19.10.2003 - 17h33

GENEVE (AFP) - L'Union démocratique du centre (UDC - droite populiste) est devenue de loin le premier parti politique de Suisse à l'issue des élections législatives de dimanche, en obtenant 12 sièges de plus au Conseil national, la chambre basse du parlement, par rapport au précédent scrutin, selon une estimation de la Télévision Suisse Romande (TSR).
L'UDC a obtenu 27,2% des voix, soit 56 sièges sur les 200 du conseil national, selon cette projection, qui révèle une progression du parti d'extrême droite nettement plus forte que celle prévue par les sondages, notamment dans les régions francophones
.

E há dinheiro para tanta porcaria

Podem ser ainda consultados na internet os arquivos do Centro de Estudos do Pensamento Político, no âmbito do projecto "Repertório Português de Ciência Política". Tratava-se de iniciativa do maior interesse e fonte de informação credível para estudantes ou meros curiosos, no âmbito das tão ignoradas ciências políticas em Portugal. Era, pois, um caso de evidente serviço público. Ao que julgo saber, o projecto foi em boa hora lançado por vontade do Prof. Dr. José Adelino Maltez, que viu recentemente traídos os seus esforços (e da equipa que o acompanhava), por ausência de apoios mínimos capazes de manter a desejável vitalidade do Repertório. Por aquelas páginas se diz que estamos perante um "interregno forçado". Esperemos, ao menos, que assim seja e que muito em breve o Repertório Português de Ciência Política recupere a vitalidade que já se lhe conheceu. A pedido de várias famílias...

Aguarda-se com serenidade

Segundo a lusitana imprensa de referência de sábado, espera-se para este domingo um vendaval da direita populista capaz de varrer a pacata pátria helvética. O Último Reduto promete ficar atento, não vá dar-se o caso de eles se esquecerem de nos dar conta do resultado.

À atenção da Sra. Ministra dos Negócios Estrangeiros

Aumenta a visibilidade do contencioso de Olivença. A louvável acção e esforço hercúleo do Grupo dos Amigos de Olivença, pequeno grupo de portugueses que não se vendem com especial facilidade, continua a fazer das suas causando desta vez mossa na alemã e muito famosa revista Stern, bem como na Noruega, simpático país onde o gamanço castelhano foi notícia quer na televisão, quer no jornal Aftenposten. Por cá, vai-se enfiando a cabeça na areia que os nossos jornalistas são de referência.

Sábado, Outubro 18, 2003

Dois meses

O Último Reduto celebra hoje dois meses de vida. E, com algum sacrifício, rara foi a vez que não apareci por aqui na data marcada, ou seja, todos os dias. Esta aventura para memória futura tem-me deixado mais rápido nas leituras. Estou praticamente como o Prof. Marcelo. Só hoje, em dia de aniversário, consegui, com atenção digna de respeito, (re)passar os olhos por dois diários: o Journal, de Pierre Drieu la Rochelle, um extraordinário escritor maldito (que não se vendia na Livraria Francesa de Lisboa pelo que a morte da dita cuja não me deixa grandes saudades); e o Diário, de Miguel Torga. É dele - mais propriamente do seu Vol. XIII - que retiro esta "Luta", cujo transcrição dedico aos meus companheiros de peregrinação blogosférica:

O que eu sonho!
A fé que ponho
Na imaginação!
Digo à razão
Que sim, que desvario
Nesta humana aventura,
E ergo mais a lança em desafio
E desço mais o elmo da loucura.

Nada conquisto, porque são moinhos
Os gigantes que encontro nos caminhos
Das minhas digressões.
Mas combato,
Combato
E desbarato
As próprias ilusões.

Los Otros Internacionales

O sempre recomendável Católico e de Direita permanece atento à guerra civil espanhola, indicando desta vez mais bibliografia muito a propósito, que tem a inegável vantagem de recordar os agora convenientemente esquecidos voluntários de todo o mundo que combateram nas fileiras dos vencedores, entre os quais se contam os nossos (também hoje esquecidos) Viriatos, sobre os quais lamentavelmente há muito pouca coisa escrita. Permito-me acrescentar uma pequena nota ao texto do Católico e de Direita, a propósito de Ion Mota: O voluntário romeno está sepultado com o seu camarada de armas Vasile Marin no cemitério de Majadahonda, à saída de Madrid pela Carretera de La Coruña, justamente onde lhes é prestada homenagem anual no início de cada mês de Janeiro.
Aproveito então a deixa do Josephuscarolus para sugerir aos interessados pelo tema um trabalho de José Luis de Mesa, precisamente chamado Los Otros Internacionales - voluntarios extranjeros en el bando nacional e publicado pelas Ediciones Barbarroja. Que se saiba, para quem não queira ir propositadamente a Espanha para o adquirir, o livro pode ser pedido aqui e/ou aqui. Boas leituras.

Começa a ser injusto, pá!

Uma das coisas que me deixa de boca aberta nas conversas telefónicas dos homens da rosa é o linguajar utilizado e muito especialmente a quantidade de vezes que usam o 'eh, pá' como forma de tratamento entre companheiros de infortúnio. Porra, pá! Não posso deixar de pensar em questão de vital relevância: não vos parece que isto começa a ser injusto para o até agora incomparável Melena e Pá?

Sem crispação

Como diria o mais importante inquilino de Belém a seguir aos meus muito estimados Antchouet e Marco Aurélio, aguarda-se, sem crispação e após a divulgação mais recente destes telefonemas socialistas, a reacção ponderada, de grande elevação e serenidade democrática de Ana Gomes, como é, aliás, seu apanágio.

E quanto mais ele caga pior isto cheira

Informa hoje a Sic que "tou-me cagando para o segredo de justiça" (tou-me, do verbo tar) foi a lindíssima frase que, em português de fino recorte higiénico, terá pronunciado o sr. Ferro Rodrigues - que, convirá nunca esquecer, tem intenção de um dia nos desgovernar.
Se juntarmos o desabafo do líder do pouco que resta do grupo socialista à quantidade de telefonemas do sr. Ferro que a comunicação social vai divulgando, sempre versando assunto em segredo de justiça, está explicada a razão para o Gastão - o mais célebre dos lusos canídeos - se tentar pirar lá de casa. A coisa deve ser de tal ordem que não há cão que aguente!

Jornalismo de referência

Não tenho, como é sabido, especial simpatia pela Nova Democracia (o grupo que se propõe levar a Estrasburgo o Dr. Monteiro), embora seja da mais elementar honestidade referir a enorme consideração intelectual que me merece um dos seus fundadores, que tenho aliás o privilégio de conhecer. A minha não simpatia pela Nova Democracia poderia ser longamente explicada, mas não creio ser esta a melhor oportunidade para o fazer; a seu tempo direi sobre o assunto de minha justiça. Ainda assim, não posso deixar de assinalar que, em certos meios jornalísticos . ao contrário de outros, em que a ND vai ao colo dos ditos . a Nova Democracia é exemplo flagrante de tratamento deontologicamente discutível . no mínimo - de alguns jornalistas de referência. Por exemplo nesta última sexta-feira é possível ler no Público uma suposta notícia sobre a inauguração da sede monteirista em Lisboa. A articulista começa a coisa com um primeiro parágrafo . pelo qual muitos leitores se ficam - que reza como segue:
O empenho investido na realização do referendo sobre a Constituição europeia e a combinação de esforços na luta pela "independência" de Portugal têm destas coisas. A qualquer momento podem derivar em declarações crispadas e acusações implícitas. Como a que lançou ontem Manuel Monteiro, líder da Nova Democracia (ND), durante a inauguração da sede lisboeta do partido: "Este partido não tem suspeitos de pedofilia e ainda bem. Que se juntem todos no Parque Eduardo VII ou nos Jerónimos e resolvam tudo".
Fazendo as contas por baixo, um terço de informação, dois terços de opinião. Mas, sendo assim, não deveria vir a prosa publicada na zona do panfleto dedicada à opinião, que, ao que sei, se chama 'Espaço Público'? Eis um bom exemplo do jornalismo de referência.

Sexta-feira, Outubro 17, 2003

Presidenciáveis

Chama-me a atenção nesta última edição da Visão uma pequena notícia dando conta de que o nome de José Miguel Júdice vai ganhando importância dentro do PSD como o melhor candidato presidencial perante uma eventual indisponibilidade do Prof. Cavaco Silva. Ofereço desde já ao actual bastonário da Ordem dos Advogados os meus humildes préstimos para a área do marketing eleitoral. Como prova da minha boa fé, avanço já com consultoria gratuita, sugerindo dois slogans para arrancar com a pré-campanha eleitoral: A Pátria: Una, Grande e Livre!; ou, em alternativa, Caídos por Deus e pela Pátria: Presentes!

Terceira Via

Nuno Rogeiro "confessou" hoje no Crossfire da Sic Notícias, que tinha passado a sua juventude nas ruas a gritar contra os Estados Unidos e a União Soviética. Era então um nacionalista-revolucionário, ao que disse Rogeiro, para assim se distinguir dos nacionalistas-reaccionários. Acrescentou que não se envergonhava nada do seu historial político; e eu gostei de ouvir, digo-o com sinceridade. Só não explicou porque mudou entretanto de ideias, mas isso ficará, por certo, para uma próxima emissão.
Publicado por pg em

À atenção do Dr. Portas

O seu amigo e companheiro Gianfranco Fini acaba de colocar em causa a maioria governamental italiana ao exigir total concessão do direito de voto aos imigrantes. São uns chatos estes italianos. Agora lá tem o CDS/PP que rever a cartilha à pressa.

Quinta-feira, Outubro 16, 2003

À geração nova

Um poema de Manuel da Silva Gaio:

Pudera este meu livro, bons amigos,
Alevantar-vos tanto o pensamento,
Que à Pátria desseis braço e novo alento
Para afinal pôr termo a seus castigos!

Mas se o cantar-vos eu feitos antigos
Não for mais do que vão cometimento,
Se houver de rendê-la, a trato lento,
Duros golpes de ferros inimigos,

Que - onde a mesquinha ergueu voz de grandeza
E os filhos já no exílio se dirão -
Ainda, por luso ser de natureza,

Ao lê-lo vós logreis ter a ilusão
De um punhado de terra portuguesa
Nele apertardes sempre em vossa Mão!

Quarta-feira, Outubro 15, 2003

Lopes Camilo

Quem é este sujeito, perguntarão os meus escassos leitores?
E perguntam bem. Este desconhecido personagem - major-general ao que parece - é o actual vice-presidente da Liga dos Combatentes, facto que terá chocado (e vem enojando) inúmeros portugueses, que, nos tempos em que isso lhes competia, não fugiram para Paris e se apresentaram às armas, em defesa da Nação, pagando o tributo, não raras vezes, com a própria vida. A revolta vem aumentando desde há oito dias, quando no semanário O Diabo, Walter Wentura levantou a lebre. Ao que parece, o referido cavalheiro, no pós 25, engavetou uns tantos camaradas de armas, pelo simples facto de ter resolvido entretanto que, por certo, viveria de melhor saúde se se juntasse aos salafrários da Frelimo. Apesar do território, à data dos factos, ainda ser português, o dito Camilo, usando farda portuguesa, entregou a esses democráticos moscovitas, pelo menos, sete militares portugueses (nos quais se conta o meu ilustríssimo amigo e camarada Luís Fernandes), que durante dois anos tiveram oportunidade de vivenciar a excelência dos campos de concentração desses pataratas moçambicanos.
Como bem faz notar Walter Wentura, compreende-se que o senhor Ministro da Defesa Nacional e o Secretário de Estado dos Combatentes, que - diz-se - terá assitido à tomada de posse enquanto representante da Tutela, não tenham tempo para ler as denúncias de O Diabo. Mas, sendo certo que o seu batalhão de assessores não deixa passar linha que seja de qualquer jornal regional sem atenta leitura, deve o bom senso concluir que o atraso na reacção se deve unicamente ao facto do senhor Ministro da Defesa estar neste momento a estudar, juntamente com o senhor General Chito Rodrigues, presidente da Liga, qual a melhor forma de chutar o senhor Carlos Manuel Costa Lopes Camilo para debaixo do tapete.
Mas exige-se alguma celeridade; é que o arrastar desta estória vai aumentando os já de si altos níveis de poluição nacional, o que é tanto mais grave quanto se conhece a incapacidade do ministro Theias, o tal que - dizem por aí - é um erro de casting. E, neste caso, como bem escreve Walter Wentura, a fuga pela esquerda baixa do costume é que me parece intolerável.

Leucemia

Sugere a Ana Anes que na blogosfera se recorde - neste dia 15 de Outubro - a leucemia. Não há melhor forma de tratar estes assuntos - digo eu - que não seja dando voz a quem sente na pele a brutalidade da doença, sem que essa doença consiga retirar a fé de quem dela sofre ou sofreu. É esta atitude positiva todo um ensinamento. E foi no site da Associação Portuguesa contra a Leucemia que encontrei um testemunho de uma doente, que de seguida transcrevo:

Confrontada com o diagnóstico da leucemia, o mundo desabou sobre mim.
Para quem tinha sido sempre saudável e gostava de viver, para quem se considerava feliz, a perspectiva de ter uma doença fatal é desoladora.
No meu caso o que aconteceria aos meus filhos, ainda pequenos?
No meio deste impacto permanece o pânico do futuro - que futuro? -, ao lado da esperança de estarmos dentro da percentagem dos que conseguem ultrapassar esta prova e que a vencem.
Iniciados os longos e, por vezes, penosos tratamentos, vividos os arrastados internamentos, há que manter a disponibilidade física e mental para aceitar os constantes avanços e recuos que a doença e as sequelas dos tratamentos nos vão oferecendo. O tempo durante a doença não pode ser contabilizado . é uma aprendizagem que vamos fazendo, só importará ser valorizado depois de ultrapassado este mau bocado.
O grande profissionalismo, a dedicação e o carinho que nos são prestados pelos profissionais que nos acompanham contribuem muito significativamente como suporte da longa caminhada que temos que percorrer. No meu caso foi prestimosa, e apraz-me aqui reconhecê-lo, o valioso auxílio que sempre recebi dos médicos, dos enfermeiros e das auxiliares de acção médica do IPO de Lisboa. A diferença, então quando é pela positiva , sente-se.
Este testemunho não ficaria completo se não referisse a incomensurável ajuda que recebi dos meus familiares e amigos que, com o sacrifício, por vezes, da sua vida pessoal e com muito amor sempre estiveram ao meu lado e sempre me transmitiram força e alento. Nos momentos mais difíceis, de maior debilidade física e/ou psicológica a .simples. presença de uma pessoa que nos conforta, alivia a nossa dor, dá-nos fôlego para mais uns dias. Também a eles obrigado.
Neste momento - Setembro de 2002 . ainda não superei a doença, estou em convalescença de um alo-transplante não relacionado, o qual, até à data, tem sido bem mais fácil que muitos tratamentos anteriores, mas parece-me poder alimentar a esperança de ainda poder vir a desfrutar a vida com alguma qualidade. Partilhá-la com aqueles que mais amo, acompanhar os meus filhotes.
Mas, ainda hoje, três anos volvidos sobre o diagnóstico, não compreendo como isto me aconteceu a mim, acho que não estava .fadada. para estas tarefas e entendo tudo por quanto passei e estou a passar como uma missão de que fui encarregue.
Pelo que já cumpri e se conseguir terminar agradeço a Deus
.

Blogues e lembretes

Em boa hora o Nova Frente levantou a questão da adaptação para a língua do saneado Camões de termos como 'blog' ou 'post'. Trata-se de assunto que, estou disso convencido, interessa a meia dúzia de pessoas (eventualmente a algumas dezenas de bloggers, que, a propósito, carecem igualmente de tradução) mas nem por isso é de menor importância. Em relação aos 'blogues' como forma de evitar o original 'blog', adiro imediatamente e sem reserva.
Já quanto a 'postal' como forma de denominar o very british 'post', apresento reservas. E que já as eram antes de ter o sábio Velho da Montanha sugerido alternativa que logo me apaixonou: "lembrete para memória futura"; estou tentado...

Terça-feira, Outubro 14, 2003

Animar a malta

Uma muito datada cantiga, dita de intervenção mas ainda hoje utilizada pelo Bloco de Esquerda, anunciava em tempos idos que o que faz falta é animar a malta. E o facto é que a malta bem tem podido tirar a barriga de misérias. Os nossos representantes tudo fazem - diga-se, em abono da verdade - para retribuir a confiança dos eleitores. Ora atentem:
- O líder parlamentar do PSD diz agora que os socialistas, na passada semana, fizeram do hemiciclo a casa do 'Big Brother', na sequência da libertação de um alto dirigente do PS que vinha vivendo de cama, mesa e roupa lavada, por dele haver suspeitas de prática pedófila;
- Este mesmo dirigente socialista, agora livre de ver o sol aos quadradinhos, regressa a S. Bento para reassumir o seu papel de deputado par(a)lamentar, apesar de, aqui há atrasado, como diz o sr. Narciso Miranda, ter exigido a demissão de um ministro apenas por ser - o ministro - testemunha em processo judicial;
- Já ontem, a madame Ana Gomes havia dito que o seu colega de partido José Lamego está de partida para o Iraque a expensas das cimenteiras ou outros interesses obscuros;
- A resposta do ilustre dirigente socialista chama indirectamente reles à madame, classificando os seus dizeres como "impropérios grosseiros" e acabando por insistir no óbvio: que o partido e o país merecem melhor;
- De igual modo, a madame Gomes exige saber se a Procuradoria-Geral da República está a investigar dois ministros do actual governo que estarão alegadamente envolvidos no mesmo processo de pedofilia que afecta o suspenso porta-voz do seu próprio partido, seguindo o rasto de um semanário lá das Franças;
- A direcção parlamentar da maioria diz, por sua vez, que a madame vive num país de terceiro mundo;
- Também agora o poder judicial confirma 5 anos de reclusão efectiva para um antigo autarca do CDS/PP de Vila Verde, localidade próxima de Braga, que não terá sido tão expedito quanto a sua colega de Felgueiras;
- Pelo meio, existe o triste espectáculo do deputado social-democrata Cruz Silva, que, segundo um outro colega de ofício, desta vez pertencente ao núcleo socialista, está refugiado na imunidade parlamentar, sendo que de outra forma, ao que se diz, já estaria dentro;
- Aqui há dias, também o dr. Monteiro, sempre pronto - quando lhe convém, naturalmente - para desdenhar na classe política, resolve limpar a responsabilidade do ex-ministro Martins da Cruz, vá lá a gente saber a razão apesar de ter uma leve ideia sobre o assunto.
- Dias depois da defesa pública do dr. Monteiro, o ministro vai para o olho da rua, acompanhado de um seu colega (que entretanto hoje já se diz pronto para outra), por matéria de importância dita menor, mas que já terá chegado à Procuradoria.
- Por estes dias também, Alberto João Jardim resolve insultar Santana Lopes, chamando-lhe De Gaulle.
Toda esta pequena procissão de asneiras, para fazer a vontade à cantiga de José Mário Branco, decorre em escassos três ou quatro dias. Razão tinha D. Frei Fortunato de S. Boaventura, teólogo e violento panfletário oitocentista (e que naturalmente acabou os seus dias no exílio), que antevia o disparate com mais de dois séculos de distância. Ora dizia ele:
Assentemos por uma vez que nunca o Povo se diz soberano para outro fim mais que para cair toda a Soberania num punhado de aventureiros, que desta arte lhe fazem a boca doce, enquanto mui a salvo e a despeito da moral cristã, e dos princípios mais vulgares da decência, vão enchendo a bolsa.
Ou, como dizia o seu contemporâneo Pe. José Agostinho de Macedo: alimpem a mão à parede.

Segunda-feira, Outubro 13, 2003

Gustavo Corção

O Manuel Azinhal, no sempre aconselhável Sexo dos Anjos, tem ultimamente trazido à blogosfera textos de Gustavo Corção, homem desconhecido da maioria dos leitores, mas que como bem diz o Manuel, não tem nisso qualquer responsabilidade... Ora sucedeu-me hoje estar a passar os olhos pelos sempre interessantes escritos de João Bigotte Chorão, quando descubro que no seu Reino Dividido (Diário 1969-75), escreve, a 9 de Outubro de 1973:

Inesperadamente (estas surpresas é que são o sal da vida) surge-me aqui Gustavo Corção, mais fresco do que em Maio e combativo como então. Que trouxe de novo ao Velho Continente este sedentário de toda a vida? A visão do vasto mundo da língua portuguesa . língua bloqueada por todas as potências que se opõem à esplêndida realidade luso-brasileira. Como a língua é, na verdade, uma pátria, Corção sente-se aqui na terra de Eça, em terra própria. Os Maias e a Ilustre Casa de Ramires (ah!, a última página.) são os livros queirosianos que prefere. Em sua opinião, Junqueiro era um .bom ateu., tão longe do verdadeiro satanismo como estão perto dele certos padres. E eis-nos caídos no formidável drama da Igreja. Exagerado, Corção? Não, argumenta ele, pois tudo o que escreva ou diga, por mais excessivo, nunca iguala a realidade. E conta daquele padre que, no momento da consagração, atira fora a hóstia e proclama diante da assembleia estupefacta que vivia enganando e enganando-se. A propósito da profanação das coisas sagradas, avanço que, na literatura portuguesa, só conheço um grande escritor luciferino: Fernando Pessoa. Grande admirador do nosso poeta, entende Corção que se poderá falar, sim, aqui e acolá, em possessão; não em satanismo. Mesmo santos foram em certas horas possessos. Com Corção é assim: começa a gente a falar em literatura e acaba a falar em anjos, em santos, em Deus.

Domingo, Outubro 12, 2003

Ars Poética, a pensar nos bloggers

De Rodrigo Emílio:

- Mãos à obra? - Mãos à obra!
Ponto é que, quando a abras,
saibas ver o que é que sobra
d'um palácio de palavras.

Despertares tardios

Também vi na Sic Notícias esta reportagem de que fala o Mata-Mouros, tendo experimentado, ao olhar para o aparelho, a mesma sensação de incomodidade. E li também as óptimas "ondas de parvoíce", de Francisco José Viegas, no Aviz. E ainda li este texto do Público sobre o assunto.
Aliás, passei o dia a escutar vozes que, à direita e à esquerda, insultavam os novíssimos programas escolares que agora se impõem aos estudantes do 10º ano na cadeira de Português. Este tipo de consciências de última hora - não estou a falar do Aviz nem do Mata-Mouros, que fique claro - de políticos interesseiros e muito típicas do mundo moderno, provocam-me, por via de regra, algum nojo.
Neste Último Reduto tenho já por várias vezes falado nos atentados que se vão cometendo, no ensino do português, contra a literatura portuguesa, sua história e autores mais representativos. Em pano de fundo, a permanente obsessão de expurgar os manuais de qualquer menção tida por fascizante, o que agora justifica plenamente que Camões seja "ensinado" numa impensável dimensão "auto-biográfica" e que Pessoa nem sequer seja mencionado, ao contrário das trovas do tempo que passa. Aqueles que só hoje descobriram a verdadeira dimensão do problema estão chocados; eu, nem por isso. Sem falsas modéstias, estou um passo à frente. Enquanto eles pensam como é possível aos professores de português ensinarem o "Big Brother" sem o verem (dizem eles...), eu já me encontro numa outra dimensão: a do aplauso. Apetecendo-me hoje ver as coisas num plano positivo, dou graças a Deus por ainda não constar da matéria programática do ensino do luso idioma a retórica do Prof. Pipi, já levado às livrarias. Menos mal...
Por outro lado, é certo que a criançada jamais terá apetência por outras leituras que não as da "TV Guia" ou da "Caras", mas isso reputo de menos grave. Trata-se apenas de mais uma inequívoca vantagem do 25 de Abril: colocar em absoluto e inatacável pé de igualdade alunos e professores.
Um dia, meus amigos, qualquer erro ortográfico - que já não digo gramatical - passará impune, por desconhecido, aos olhos de qualquer mestre, descontando os casos (que os haverá certamente) em que seja o discente a ensinar a missa ao padre. Um dia, estes despertares tardios ainda se vão arrepender da merda que - conscientemente - plantaram.

Sábado, Outubro 11, 2003

Ungaretti

ainda há quem tenha reservas para com a blogosfera... Neste sábado que é prenúncio de mau tempo, é reconfortante ler por aqui três referências a Giuseppe Ungaretti; a onda começou no Abrupto (o responsável por tão boa ideia), e teve seguimento na Flor de Obsessão e na Nova Frente. Fica mais um pequeno contributo: La Madre (1929):

E il cuore quando d'un ultimo battito
avrà fatto cadere il muro d'ombra
per condurmi, Madre, sino al Signore,
come una volta mi darai la mano.

In ginocchio, decisa,
Sarai una statua davanti all'eterno,
come già ti vedeva
quando eri ancora in vita.

Alzerai tremante le vecchie braccia,
come quando spirasti
dicendo: Mio Dio, eccomi.

E solo quando m'avrà perdonato,
ti verrà desiderio di guardarmi.

Ricorderai d'avermi atteso tanto,
e avrai negli occhi un rapido sospiro.

Nem de propósito

Se ontem neste espaço era possível ler um excelente texto de Manuel Maria Múrias versando o dia-a-dia e os dislates da canalhocracia, nem de propósito sentei-me hoje a ver o "Expresso da Meia Noite", na SIC Notícias, que não fosse o que é, mais parecia um terramoto contra o sistema político vigente. Como a edição desta semana tinha seis jornalistas à volta da pacata mesa de Carnaxide, ficámos a saber imensas coisas, quase sempre sob a forma de insinuação, nomeadamente que o ex-ministro Isaltino de Oeiras terá umas negociatas em Espanha, Estados Unidos e Palop's, além dos já conhecidos taxímetros suiços, e que o líder do PS e o seu principal acólito, agora em liberdade, farão manchetes nos próximos tempos, sempre com a pedofilia como pano de fundo. Até aqui, nada de extraordinário a assinalar.
Já mais grave é a imagem que ilustra a capa do Expresso: não é que aqueles vândalos, enquanto recebiam o arguido, deram cabo duma histórica mesa de torcidos e tremidos, aparentemente em Pau Santo, pelo que é dado compreender das imagens - bonito exemplar do mobiliário tuga - que se encontrava num pacato corredor de São Bento e que não havia insultado nada nem ninguém, e nem sequer, ao que se sabe, havia já mobilado o gabinete do juíz Rui Teixeira? Ora porra - como se diz lá na linguagem do grupelho socialista: façam lá as festas que entenderem mas deixem o mobiliário em paz, que o arranjo vai sair do nosso bolso!

Sexta-feira, Outubro 10, 2003

manuel Maria Múrias (II)

A Canalhocracia é o nome de um artigo não muito conhecido de Manuel Maria Múrias, e que foi publicado na revista "Manchete" no âmbito de uma colaboração regular, nos meses em que o governo do Prof. Cavaco Silva já dava as últimas:

Não fora o caso de, muito obrigados, também sermos participantes da peça e bem se poderia considerar a cena política nacional e internacional como um extraordinário espectáculo de gargalhada. Entre dois doutoramentos honoris-causa, vinte conferências de imprensa e entrevistas, dezenas de banquetes e centenas de viagens ao estrangeiro, os políticos insultam-se copiosamente. Nada desprestigia mais o sistema. Protegidos pelas respectivas imunidades, dizem uns dos outros o que Mafoma não dizia do toucinho, acusando-se mutuamente das piores malfeitorias. É difícil encontrar no mapa pessoas mais ordinárias.
Dizem os próprios que o fenómeno não tem a menor importância. Quando, aqui há alguns anos, o Raúl Rêgo chamou f. da p. ao falecido Francisco Sousa Tavares, este, então director de "A Capital", escreveu um editorial a desculpar o insultador e a afirmar que aquela era linguagem própria dum regime democrático. Ficámos todos à espera de mais.
Há semanas, um daqueles pretos assassinos que o glorioso 25/4 libertou dos portugueses e logo regressou a casa de canhota em punho, afirmou sem qualquer rebuço que a alteração da política externa portuguesa em relação a Angola era devida ao facto do outro contendedor estar a pagar ao Primeiro Ministro em punhados de diamantes. O sr. Cavaco Silva tinha chamado criminoso ao dito preto, embora o tivesse recebido em sua casa e lhe tivesse apertado a mão. A troca de insultos decorreu na maior normalidade democrática e ninguém a comentou.
Como se tal não bastasse, durante o debate parlamentar sobre o estado a que chegou a nação, tanto o governo como a oposição se desbocaram em acusações. Não poupando os vitupérios, o sr. Guterres, secretário geral do Partido Socialista, considerou o Primeiro Ministro como um lunático inventor dum Portugal imaginário, e inculpou-o de manipular as estatísticas, verdadeiramente incapaz de controlar a inflação e o crescente desemprego. O Primeiro Ministro, em tom sarcástico, redarguiu-lhe, insinuando que o seu adversário era apenas o porta voz do Presidente da República, verdadeiro líder da oposição. Poucos dias após, um outro responsável socialista apelidava o Chefe do Governo de caloteiro virtuoso.
Se acreditássemos nuns e noutros diriamos que Portugal é pasto duma quadrilha de vadios e está a ser saqueado, metodicamente por traficantes de influência, poetrastos diletantes sem o menor talento, economistas de três ó vintem, ciganos da política sem eira nem beira.
A indiferença com que o estimável público vê desfilar as imagens é aflitiva. Parece que se aguarda uma convulsão apocalíptica para se pôr termo à situação. Nos quatro cantos do planeta vão-se desfibrando e desmoronando as instituições políticas; não há dúvida de que o sistema demo-capitalista recomeçou o seu processo de decomposição interrompido pela II Grande Guerra Mundial.
Em Portugal ainda não é muito evidente este sentimento de decadência. Há séculos que vivemos atrasados cinquenta anos em relação à Europa. Mas, para lá dos Pirinéus até aos Urais, e, por toda a América, vive-se uma atmosfera de autêntica angústia. Ainda há pouco, um antigo companheiro de ladroeiras do sinistro Palma Inácio e ilustre democrata, alcunhava os regimes vigentes de canalhocracias. A desilusão, e talvez o remorso, vão empapando a consciência dos menos estúpidos. Transcendendo o desalento e a impotência contra o que eles mesmos criaram, adivinha-se o desespero. Chegámos ao fim duma era da história; talvez o post-modernismo político, amálgama informe de todas as mais velhas práticas políticas. É difícil resolver o problema sem se chegar a uma impulsão mortal e sanguinolenta. O futuro aproxima-se de forma trágica e lúgubre. Os canalhocratas não podem durar eternamente.

manuel Maria Múrias (I)

Para a minha geração, a que nasceu na fronteira entre a longa noite escura e a primavera marcelista, o que equivale a lembrar Rodrigo Emílio que num outro contexto dizia que alguém tinha dado entrada neste mundo numa hora em que mais valia sair dele, Manuel Maria Múrias é uma referência política incontornável. Após o 25 de Abril dos democráticos e pelo simples facto de manter fidelidade às suas ideias, o MMM teve a oportunidade de conhecer, como ele dizia, toda a obra prisional do Estado Novo, classificando-a aliás como bastante razoável em debate televisivo memorável que, por certo, ainda hoje muitos lembrarão. MMM foi democraticamente "engavetado" em 28 de Setembro de 1974 por pertencer a "associação de malfeitores". Sensivelmente seis anos depois, em pleno governo da Aliança Democrática, foi novamente colocado intra-muros apenas por ter dito coisa tão simples como esta: que Soares era um "mentiroso relapso e contumaz". Como lembrava o três M.s nas páginas da Rua, o meretíssimo juíz dr. Sepúlveda Serra ferrou-me catorze .abrunhadas., como se diz no paleio prisional . ou catorze meses de prisão como se lê na sua douta sentença. Múrias nunca desanimou ou perdeu a fé, e continuou, a partir da cadeia central do Linhó em que ostentava a categoria de recluso nº 257, a escrever os mortíferos editoriais do jornal da direita que não é do centro e que, ao tempo, tirava setenta mil exemplares - nas calmas.
Pelo meio, MMM não foi eleito deputado por uma verdadeira unha negra. E terminado o carnaval revolucionário, continuou a escrever e a trabalhar, politicamente, até à hora da sua morte. Faz-nos lembrar todos os outros que, nunca se deixando vencer, alcançaram a vitória, de derrota em derrota, por nunca terem fugido. Faz hoje três anos que fomos ao Estoril prestar-lhe uma última homenagem.

Quinta-feira, Outubro 09, 2003

Promessa quebrada

Tinha prometido a mim mesmo não gastar linhas deste espaço para tratar o assunto da pedofilia e da Casa Pia. Para isso, existem os tribunais, o Ministério Público e as competentes polícias. Além disso, não me interessa especialmente saber se o artista X ou o político Y fazem ou não parte da rede, se o mentiroso o é muito ou pouco, adivinhações que se tornaram nos últimos meses um verdadeiro desporto nacional. Em matéria desportiva, permaneço fiel ao futebol e ao Belenenses.
Mas o verdadeiro circo que a alegada oposição socialista e a comunicação social montaram esta quarta-feira em torno da libertação de Paulo Pedroso parece-me especialmente repugnante para continuar mudo e calado. O PS, um grupo sinistro que o Engº Guterres em boa e devida hora retirou do governo, insiste, estupidamente e a todo o custo, em misturar-se com o caso dos pedófilos da Casa Pia. Fizeram asneira grossa quando Pedroso foi preso e, de compreensão lenta, voltaram agora a meter a pata na poça. Pedroso abandona a prisão e segue directamente para o parlamento . pago por todos nós e cujas actividades importantíssimas presumo que tenham estado interrompidas a partir de meio da tarde . onde decorrem então dois pequenos comícios, que servem igualmente (e discretamente) para pressionar o poder judicial.
Compreende-se sem qualquer dificuldade que os amigos . os autênticos - de Paulo Pedroso fiquem satisfeitos com a sua libertação. Já não se compreende que o PS se aproveite escandalosamente dessa libertação, com gritos e palmas (e abraços traiçoeiros), como se de uma absolvição transitada em julgado se tratasse, para daí tentar retirar dividendos políticos. Todos se lembram certamente que enquanto a coisa não lhes tocou, os políticos queriam investigações exemplares, levadas até às últimas consequências; a partir do momento em que o escândalo lhes bateu à porta, eis que nasce a teoria da cabala. Isto é gente de uma só palavra.
E, parece-me a mim que para um socialista deveria ser ponto assente que o excesso de prisão preventiva e outros atropelos judiciais são graves; mas são (ou foram) graves para todos os cidadãos e não apenas para os políticos e os amigalhaços, com mais possibilidades do que qualquer outro cidadão de assegurar uma boa defesa e os custos exorbitantes de sucessivos e constantes recursos.
A quem quiser aprofundar esta tara criminosa da pedofilia, reflectindo um pouco mais sobre o problema . digno de penas severíssimas . sugiro que leia, com a atenção que merece, este post . extraordinário - do Manuel Azinhal.

Quarta-feira, Outubro 08, 2003

Caminhando por volumes cheios de pó

Estava hoje a pensar que uma das coisas simpáticas que a existência deste Último Reduto me tem proporcionado é um passar os olhos com maior regularidade por títulos - livros, jornais e revistas - que, habitualmente, pouco abandonavam o seu justo lugar de destaque nas estantes cá de casa; lidos, relidos e arquivados. Só por isso tem este blog, para o seu autor, essa inegável vantagem. Seguindo esta regra de mergulhar no guardado, atirei-me hoje aos primeiros números da Futuro Presente, revista de referência (dirigida por Jaime Nogueira Pinto), pelo menos para os que apreciam o estimulante combate cultural. E logo nos dois primeiros números encontro duas ideias que merecem destaque.
No número 1 (Maio/Junho de 1980), e por ter lido há pouco as "memórias juvenis" de Alexandre Franco de Sá escritas neste último 5 de Outubro, dele me lembrei num artigo de Nuno Rogeiro em que se recordam as palavras de João Rosa, meio irmão de Fernando Pessoa, tratando de clarificar a imagem pública (e a curiosidade do público) de Pessoa enquanto .animal político.. Dizia ele: O Fernando, no fundo, era um revolucionário; não quero dizer que fosse anarquista mas simplesmente revolucionário. Não era tipo que conduzisse uma marcha de protesto. Mas acreditai-me, estava pronto a pegar na caneta e atacar o inimigo à menor provocação e julgo poder dizer com a maior verdade que a sua pena era um instrumento muito mais letal que qualquer coktail Molotov que pudésseis arremessar. Era devastador. Estas palavras de João Rosa constam de um número da revista Ocidente de Novembro de 1969, em que se traduzia uma conferência que ele havia dado em Cardiff, sob o título .Fernando Pessoa . como eu o conheci..
A segunda nota que quero partilhar convosco é tirada de uma excelente entrevista a Prezzolini . também ele um homem do combate cultural e .Um Italiano Útil. nas palavras de João Bigotte Chorão . conduzida pelo jornalista e escritor Claudio Quarantotto e que a Futuro Presente publicava no seu número 2, de Setembro/Outubro de 1980. A páginas tantas, Prezzolini dispara: Repara que o pessimismo tem o seu lado belo. Quando não acontece aquilo que o pessimista espera, é um motivo de alegria, que um optimista não pode ter. Ora aí está uma grande verdade, nem sempre tão evidente quanto parece à primeira vista. A entrevista é fantástica e não merece deixar de ser lida, antecedida por um texto sobre o autor. Não me escrevam é a perguntar onde se encontram os primeiros números da Futuro Presente porque eu não sei. Tentem telefonar para lá; os contactos da revista, que ainda existe, já foram deixados no Sexo dos Anjos. Pode ser que haja por lá boa vontade para, pelo menos, fazer umas fotocópias.

Terça-feira, Outubro 07, 2003

Os velhos e o mundo moderno

Já se sabe que Julius Evola explica tudo isto. Já se sabe, mas apesar disso, é sempre com um misto de desconforto e de espanto que conhecemos o resultado prático do individualismo mais repugnante que é hoje quem mais ordena. Um estudo organizado pela Direcção de Pesquisa e Estatística dependente do governo francês agora divulgado em meia dúzia de linhas pelo Diário de Notícias, dá-nos conta de números repugnantes no que à velhice diz respeito: em quatro das cidades teoricamente mais desenvolvidas do mundo . Paris, Londres, Tóquio e Nova Iorque . uma em cada duas pessoas com mais de 85 anos vive na mais completa solidão. Desses cidadãos que já produziram o que lhes competia para a melhoria do nosso bem estar, dois em cada três são mulheres e boa parte delas já terão sido mães. Já trouxeram vida a este mundo, não merecendo por certo semelhante pagamento. A cidade que apesar de tudo e segundo o estudo apresenta resultados menos dramáticos é Tóquio, o que facilmente se explicará pela maior persistência dos valores e da ideia tradicional que ainda vinga no país dos samurais. É exactamente no Japão que a tradição ainda manda enviar os velhos, não para degradantes lares, por mais luxuosos que sejam, mas para casa dos filhos que assim respeitam integralmente a dignidade da família e da pessoa humana.
Das quatro cidades estudadas, não espanta que as duas de língua inglesa sejam as que apresentam mais elevado estado de degradação dos valores mínimos que devem presidir e acompanhar a Vida. É para este tipo de desenvolvimento que também por cá vamos caminhando. Demasiado ocupados com as carreiras e com o mais mundano egoísmo - com o materialismo que tudo determina - também por cá se interrompem as peregrinações aos grandes centros de consumo domingueiro, para, durante duas ou três horas, se visitarem os velhos respectivos que ou definham na mais completa solidão ou foram depositados às ordens de um lar que - queremos sempre acreditar - oferece todas as garantias, que são aliás vistas numa perspectiva igualmente material.
A mim repugnam-me estes progressismos. Jamais irei por aí.

Tribalismo

O Mata-Mouros ainda não me deu nenhum prémio dominical mas já me 'linkou', o que sempre é um princípio. E - atente-se à simpatia - entrei na lista de blogs "tribais". Desconfiado com o epíteto, até porque não tenho pretensões a ser membro da Nova Democracia, logo corri para a bibliografia que tinha mais à mão, o que foi positivo pois constatei que o Mata-Mouros, afinal de contas, se limitou a usar um termo que tem por via de regra conotações negativas para melhor chamar a atenção para as qualidades deste pobre reduto. E se não acreditam, ora consultem o "Dicionario Unesco de Ciencias Sociales" (Instituto de Estudios Politicos, Madrid, 1987), a páginas 2274 e seguintes. Ou atentem no que se diz pelas enciclopédias cá do burgo: é coisa que sempre remete para famílias, seus géneros e troncos comuns, para a Tradição, para o clã e o Estado. Nada de ofensivo, portanto.
Agradeço pois a estes amigos nortenhos a deferência tornada pública. Que se justifica, até e quanto mais não seja, por proximidade territorial. É que a esmagadora maioria dos meus laços familiares levam-me até à nobre e sempre leal cidade, mais propriamente às zonas de Paranhos e do Carvalhido; a propósito, um abraço para os meus amigos do Velho Salgueiral!
E remato com citação enciclopédica: a condição especial dos destribalizados constitui um dos mais delicados, dramáticos e complexos problemas morais e politico-sociais do nosso tempo.

Segunda-feira, Outubro 06, 2003

Eu sou o mestre de culinária

Mão amiga desta Avenida de Roma faz-me chegar já ao fim da noite o Correio da Manhã deste 5 de Outubro. Por aí, em plenas páginas centrais, se dá tempo de antena ao grande "cozinheiro" Nuno da Câmara Pereira, homem do avental, músico menor e toureiro de excepção, que, ao que parece, terá descoberto a glória fácil num senhor seu primo, Pedro de Mendonça Faulk, o autêntico herdeiro do trono de Portugal, para fazer frente aos miguelistas. Não satisfeito com a descoberta, o triste fadista da camisa aberta até ao umbigo afirma ter criado um Conselho de Nobreza lá por casa. Assim, tout court, sem mais nem ontem. Agora que os discos vendem menos pode ser que os títulos vendam mais. Mais um para somar ao dr. Sousa Lara.
Não há dúvida que a ideia real está cheia de bobos da corte.

A Rua (IV)

A "memória de a Rua" contava-nos logo no seu segundo número, com data de 15 de Abril de 1976, uma historieta engraçada e que tem a particularidade de se repetir com assustadora frequência - e com tantos outros personagens - ao longo da história dos homens. Porque penso valer a pena, faço questão de aqui partilhar essas linhas.

Quem queira dar-se ao trabalho de ir a uma biblioteca e, aí, consultar o "Diário de Coimbra" de 7 de Outubro de 1974, poderá ou deverá dar atenção a uma notícia cujo título é tal como segue - FUNCIONÁRIOS DO PALÁCIO DA JUSTIÇA VOLTAM BUSTO. Sob esse título bombástico se descreve a fantástica e corajosa atitude de um grupo de zelosos funcionários que voltaram contra a parede o busto do 'fascista' Doutor Antunes Varela.
Por outro lado, quem consultar os arquivos do Ministério da Justiça, neles encontrará um requerimento assinado por 24 advogados de Coimbra, através do qual se pede a retirada do referido busto - por ser atentório ao clima de liberdade em que se vive.
No entanto quem for mais longe, e consultar o mesmo "Diário de Coimbra" de 7 de Junho de 1966, e ler as três páginas inteiras de encomiásticas palavras dedicadas à inauguração do referido busto, verificará, certamente, não sem profundo espanto que:
O distinto advogado coimbrão que, com calor e entusiasmo, rezou o discurso principal da homenagem acima relembrada, é o mesmíssimo que encabeçou a lista ou o rol de assinaturas do requerimento, também acima mencionado.

Domingo, Outubro 05, 2003

A Rua (III)

Dizia em nota da redacção:

Os monárquicos, como monárquicos, e como o Rei, ou se colocam acima dos partidos e da agitação política, ou se demitem do seu próprio monarquismo. O que é essencial à realeza é o seu carácter transcendentemente arbitral; ao misturar a monarquia com partidarismo, diminui-se o carácter quase sagrado da instituição real.

Dois preciosismos literários

Leio no Nova Frente que o mais recente Nobel da Literatura - John Maxwell Coetzee - está abaixo de Saramago. Desconheço por completo o autor sul-africano - e palpita-me que não perco grande coisa - mas considero que estar abaixo de Saramago... é obra que fala por si, pelo que o prémio será, então, inteiramente justo.
Ainda em relação aos Nobel da Literatura e ao texto do BOS, encontro uma segunda nota digna de registo. É que por lá se diz - e muito bem - que se alguém erguer uma biblioteca com base nos Nobel dos últimos 50 anos, fica com uma valente merda em casa. Eu bem sei que o Nova Frente é Senhor de altíssima generosidade cristã, mas daí a ficar pelos cinquenta anos... Ainda por cima quando os cinquenta anos dão logo de caras com o prémio de 1953, que muito politicamente foi parar às mãos de Sir Winston Churchill, um novelista de excepção, já para não falar de Mauriac, premiado do ano anterior e nada comprometido politicamente; um francês que só não "concorria" com Drieu ou Brasillach porque a esses já o politicamente correcto tinha feito a folha.
Pela minha parte insisto em ignorar a Academia e persisto, como o Manuel Azinhal, em continuar a ler o que gosto, coisas que por maioria de razão jamais serão merecedoras de tão ilustres prémios. É que esses tipos só se enganaram uma vez - em 1920, quando a glória foi para Knut Hamsun - e só não retiraram o prémio posteriormente vá lá Deus entender a razão.

Sábado, Outubro 04, 2003

Às portas (travessas) de um 5 de Outubro

Exorcismo lírico e satírico de Rodrigo Emílio a conjurar o advento de república, e seus derivados.

I.
A camioneta-
- fantasma
pasma do poeta.
E o poeta não pasma.

Ei-lo à margem dos seus
e fora da lei,
- mas fiel a Deus,
à Pátria e ao Rei!

Não pede clemência
não faz qualquer súplica
a Sua Indecência,
a República.

Morrerá menino e moço,
sem Pátria nem parentela,
com uma cruz ao pescoço
e a coroa real na lapela.

II.
O cincozinho d.Outubro
é um perfeito mamarracho.
E eu por cima dele subo
ou me entorno dele abaixo,
a ver se o sumo
e me sumo
ou me agacho.

É uma data sem maneiras,
que não tem aceitação.
As orelhas e as olheiras
comem-lhe toda a feição.
Possui cara de traseiras,
com perfil de saguão.

Não tem serventia
nem para a escada
que conduz à pia
e, desta, à piada.
Que gaita de data
mais patarata
e sinistra, ó Sinatra!
Sinistra a valer!.

E que lenda mais lêrda
- que lêndea de lenda -,
à coca e à cata
de gozo e lazer.!
Cheinha de lata
a mais não poder.,
oh! Que raio de data
laica . que se farta,
socialista, à brava,
e de esquerda-volver.

É mandá-la varrer
da face do mapa.
- Que 'stá lá ela a fazer?!.

Sucata é sucata.
É mandá-la varrer.

Correio de Alvalade

Ainda a propósito das memórias dos bons tempos da Avenida de Roma, conta-me o Duarte Branquinho:

É bom lembrar. Lembrar é viver. Recordei com emoção quase todos os locais referidos numa zona onde também cresci. Encarnei o espírito que se vivia na altura com a mais portuguesa das saudades.
Mas, já que estamos numa de micro-regionalismos, tenho que puxar a brasa à minha sardinha.
É que eu cresci na outra ponta da Av. de Roma. Aliás eu e os meus amigos considerávamo-nos 'de Alvalade'. Além 'de Alvalade', éramos também 'do Rainha', liceu que guardo no coração e que me marcou para sempre, em especial por ter sido apanhado por uma geração bastante rebelde e intransigente. Nunca esquecerei as cervejas na Sul América (que ainda existe), os jogos de snooker nas traseiras do actual Centro Roma, as aventuras na 'casa velha', um casarão em ruínas onde hoje está o edifício da PT, entre tantas outras peripécias de juventude. As 'guerras' de carnaval, sempre contra o 'Padre' e o 'Filipa'. As lutas políticas da altura, quando os ânimos se exaltavam e a fidelidade ideológica se provava com acções. Relativamente às rivalidades liceais, ainda me lembro que, pelo menos no meu tempo, os 'fachos' do Filipa eram da NM e os do Rainha eram do MAN. Defendíamos a todo o custo o «Nacionalismo Popular Revolucionário», e fazíamo-lo nas ruas, inspirados pelos graffiti de movimentos que nos antecederam como os da NOS, da ON, ou do MNP. Sentimo-nos no caminho da vitória depois de uma histórica campanha «Vota Branco» para as eleições da Associação de Estudantes do Rainha, que terminou com mais de 80% de boletins em branco.
Agora, já nos .trintas., posso considerar essa altura como os meus bons velhos tempos.
Partilho totalmente da tua ideia de que «crescer hoje em dia deve ser mais monótono», em nada invejo esta geração que vive cada vez mais em ruas descaracterizadas, cravadas de bancos, "restaurantes" fast-food, franchises, etc. A mesma que faz peregrinações semanais, quando não diárias, aos grandes templos do consumismo, impessoais e globalizantes. Mas nem por isso devemos baixar os braços. Temos uma obrigação para com o nosso Povo de criar e educar uma nova geração, transmitindo-lhe aqueles valores imutáveis que formam a personalidade e fortalecem o carácter. (Duarte Branquinho)


Caro Duarte, obrigado pela generosa partilha de lembranças. Nos carnavais do Filipa não perdíamos muito tempo com os do Padre. Dava mais gozo viajar até ao Camões. Pinturas da NOS ainda subsistem umas tantas. Continua a escrever e, já agora, se a Sul-América ainda resiste - estoicamente - à modernidade, combinem-se umas imperiais, antes que a Comissão Europeia acabe com elas!

Gargalhada do dia

"Nós que somos opinion-makers"; Anacoreta Correia, no Expresso da Meia Noite, Sic Notícias.

Sexta-feira, Outubro 03, 2003

Guerra Civil Espanhola

O Católico e de Direita aproveitou uma boca que eu aqui deixei para dizer - e bem - meia dúzia de verdades sobre a guerra civil de Espanha e sugerir umas quantas leituras, aliás altamente recomendáveis. Pela minha parte, dexo-vos uma pequeníssima amostra do respeito das brigadas internacionais pela Igreja e pelo Clero.

Tachos & Cursos

Para vos ser franco, pouco me importa se a filha do nosso alegado Ministro dos Negócios Estrangeiros começou a cursar Ciências Médicas com base numa cunha do pai e respectivos amigos, facto que agora parece evidente aos olhos de todos. Aliás, acho que a rapariga é a menos culpada de mais uma trapalhada em que os nossos políticos são férteis.
O que ainda me chama a atenção, para além do espanto que estas coisas ainda causam a muita gente, é a falta de vergonha de outras tantas: o nefelibata Luis Delgado, comissário político do governo junto da comunicação social, logo se apressa a desvalorizar a negociata; os analistas de ocasião logo aparecem a defender o dr. Martins da Cruz e o seu alegado bom senso (o mesmo bom senso que chutou Olivença para o fundo da gaveta e enviou o embaixador português em França a um comício partidário...); e, por fim, o incomparável dr. Monteiro, pretenso chefe de fila do moralismo da vida política e cuja entidade patronal é a que se sabe, a não mostrar qualquer reserva em abrir a boca na SIC Notícias para justificar a estória. Isso sim, uma vergonha!

A Rua (II)

A razão de ser do jornal, publicada na sua primeira edição e assinada por Manuel Maria Múrias:

A Guerra d'a Rua: Já agora, ante os perigos imediatos, o que resta de Portugal não se defende em casa - defende-se na rua. (...)
Para além da vida que somos e, imemoriavelmente, se enterra na História que é tudo - pouco nos prende ao passado. Recusamo-nos a viver agarrados a cadáveres. (...)
Não fomos - porque não nos quiseram - deputados pela União Nacional como os drs. Sá Carneiro, Pinto Balsemão e Magalhães Mota; nem empregados da CUF como o dr. Mário Soares; nem do António Champalimaud como o dr. Salgado Zenha; Miguel Quina não nos deu ordens como dava ao pobre dr. Rego. Vivemos soltos e livres, por entre as limitações naturalmente disciplinadas do dia-a-dia profissional e político, na vida forte de quem trabalha. Somos a Direita.
Até há pouco, nesta democracia de funil gloriosamente reinante e arruinante, consideraram-nos o perigo. Perseguiram-nos: - muitos de nós malharam com os ossos, durante longos meses, nos cárceres da liberdade. Omiziaram-nos. Espancaram-nos. Roubaram-nos as coisas e os filhos. Torturaram-nos.
Regressamos sem ódio a apresentar a factura e a ensinar-lhes a eles (à esquerda inepta e néscia) como se defende a Pátria - convivendo e lutando. (...)
Triunfalistas? Com certeza: - não se defendem derrotas, nem se ressuscitam mortos, nem se reconstroem redutos ultrapassados e desmurados pela insânia do inimigo. Aposta-se no Futuro - porque o Futuro, sendo de Deus, é nosso. Nesta guerra com razão/temos Deus por capitão.
(...) Já se viu do que a esquerda é capaz: - Vasco Gonçalves foi só, e divertidamente, a grosseira caricatura de toda ela. Menos lépido, talvez; menos esperto, com certeza; mais doente, por acaso; mas o seu retrato. A esquerda aplaudiu tudo o que Gonçalves desfez, enquanto Gonçalves lhe não foi a casa. (...)
Saímos à rua, com a RUA, para calcetar, descalçada que ela foi pela estupidez, pela vaidade redundante - e pela traição. Descemos à rua com o povo - porque somos o povo secular, contra o populacho anti-povo. Somos a Direita - a Direita que eles receiam. (...) Vamos ser (orgulhosamente sós) o único jornal da Direita que não é do Centro.
Isto dizemos claramente para poupar trabalho aos 'bufos' consuetudinários que, nas colunas dos jornais ditos socialistas e sociais-porche-istas, se sentirão na obrigação denunciante de nos apontar o dedo. Honradamente nos confessamos o que somos, sem o menor sentido de oportunidade, para além de tacticismos eleitoralistas, para acolá (talvez...) dos nossos próprios interesses conjunturais Vimos ocupar a larga cratera cravada brutalmente pelo terrorismo esquerdista. Somos o combate do Futuro.
(...) a esquerda mostrou-se tal qual é. A galeria dos seus incapazes há-de persegui-la inexoravelmente. Rosa Coutinho é da esquerda. Otelo Saraiva de Carvalho é da esquerda. Vasco Gonçalves é da esquerda. Pereira de Moura, Mário Murteira, Mário Soares, Álvaro Cunhal e Melo Antunes são a esquerda. (...)
Não será este jornal, portanto, uma folha qualquer. Nem será de trato fácil. Haveremos ostensivamente de proclamar a Verdade - porque só a Verdade é revolucionária e crítica. (...)
Fica o leitor esclarecido. Quem não quiser - não queira. A RUA não se abre para enganar ninguém no seu caminho. (...)

A Rua (I)

O jornal A Rua, dirigido por Manuel Maria Múrias, publicou o seu número zero em 30 de Março de 1976. Tinha periodicidade semanal e custava a módica quantia de dez escudos.

Quinta-feira, Outubro 02, 2003

Importa-se de repetir?

Parece que uma parte do que ainda resta do PS fez hoje prova de vida. Neste caso, foi a vez de Jaime Gama sair a público para considerar uma «paródia democrática» a possível realização de um referendo em Portugal sobre a Constituição europeia.
Regista-se o forte sentimento democrático e o enorme respeito pelas massas eleitoras, apesar de não ser grave. Sendo preciso, o Dr. Gama amanhã diz o contrário.

Alain de Benoist

Imperdível é o que se pode dizer do site da associação Les Amis d'Alain de Benoist.
Trata-se de uma boa maneira de tomar contacto com um dos maiores pensadores contemporâneos, filósofo político e conhecedor profundo da história das ideias. Do homem que fez nascer a "Nouvelle Droite" e mais vincou a importância do combate cultural, são agora disponibilizados, de forma organizada, cerca de três décadas de trabalho e reflexão: inúmeros artigos de opinião, textos orientadores, informação bibliográfica (versando também os livros editados em Portugal, hoje disponíveis na Hugin Editores), entrevistas e informação complementar. É obrigatório colocar nos favoritos.

Animus Culturae, ainda o Superior Privado

De tudo o que li até agora, creio que o Catalaxia toca no ponto fulcral da questão quando pergunta, referindo-se ao princípio constitucional da igualdade: "se é ensino superior universitário, porque hão-de ser diferentes as regras se for público ou privado"?
Ocorrem-me algumas notas: dificilmente se compreendem as limitações impostas pela Tutela aos docentes em acumulação. Se é certo que não faltavam nas privadas os Doutores que apenas "davam o nome", não é menos verdade que todos conhecerão inúmeros casos de professores doutorados que acumulavam serviço nas privadas com todo o empenho e igual dedicação à que dispensavam ao superior público. No caso que melhor conheço - a UAL - não faltavam nomes das áreas do Direito (alguns de Coimbra) e da História nessas condições cujo trabalho lectivo deixou marcas altamente positivas no corpo discente.
Acresce ainda o aspecto mencionado pelo Catalaxia referente à necessidade (ou inevitabilidade) das privadas assegurarem, para início de conversa, o compromisso escrito e assinado de cinco doutores da área. Se aplicarmos a lógica (ou a falta dela) do legislador, compreendemos as enormes engenharias para cumprir tais requisitos, por exemplo, no campo das licenciaturas em Relações Internacionais. Ora, pergunto eu: no boom das licenciaturas nesta área, ainda no final dos anos 80, quantos doutorados existiriam em Portugal nesta área do saber? Mestres eu conhecia um, com provas prestadas em Lovaina, que por acaso só dava aulas no superior privado. Doutores, desconheço a sua existência à época. Mas ainda mais grave é que no ensino público arrancam cursos sem dar qualquer tipo de garantias deste género, como aliás bem exemplificou o Catalaxia.
Ainda assim, volto a manifestar, à semelhança do Bloguítica Nacional, um optimismo moderado em relação ao sector universitário privado. Não tenho a mais pequena dúvida da impossibilidade de se manterem todas as que actualmente existem e da consequentemente inevitabilidade de alguns processos de fusão, ainda que com as dificuldades que resultam do sistema cooperativo. Ora, após as tais fusões - acompanhadas de algumas "desistências" - e sendo certo que o sistema público está falido, julgo que poderemos acreditar na existência de pelo menos três grandes universidades privadas: duas sediadas em Lisboa e uma no Porto. Assim se saiba apostar na qualidade, aproveitando as possibilidades abertas pelos princípios da autonomia universitária e nas vantagens competitivas que podem ser inerentes ao sector: uma gestão mais eficaz, capaz de tomar decisões mais rápidas e em sintonia ou convergência de actuação com as entidades empregadoras privadas.

Quarta-feira, Outubro 01, 2003

Sai um testamento sobre o ensino superior privado

O Catalaxia e o Bloguítica Nacional tomaram a iniciativa de iniciar um importante debate sobre o ensino superior privado, que aliás teve um excelente pontapé de saída com a história do movimento universitário particular e cooperativo feito pelo Catalaxia. A esse enunciado histórico não tenho grande coisa a acrescentar para além da concordância, pelo que me limito a deixar meia dúzia de notas muito adjacentes:
- O fim da Universidade Livre marcou o início da decadência do ensino superior privado português. Se o projecto universitário da Livre tivesse persistido no tempo, não só não estaríamos por certo hoje a ter esta discussão, como seria certo que a Livre estaria a discutir com a Católica o top do ranking. Ainda hoje merecem reconhecimento no mercado de trabalho os licenciados da Livre, já para não falar dos inúmeros assistentes universitários hoje existentes e nela formados.
- Os anos 90,conforme bem diz o Catalaxia, marcaram uma nova oportunidade perdida para as privadas, que poderiam de facto ter encostado à parede os titulares da pasta da educação. Ainda assim, nesse auge do ensino superior privado, não só não se aproveitaram as oportunidades como a imagem pública destas instituições levou nova machadada com o célebre e sinistro caso dos .dois reitores. que animou a comunicação social e atacou a Autónoma. Foi um caso que vivi muito de perto e que de certo modo espelha na perfeição alguns dos problemas historiados pelo Catalaxia. A incomparável novela da Moderna foi, no aspecto da imagem pública, o golpe final. Como é evidente, ninguém se recorda, quando comparadas com estas historietas, das significativas evoluções que o ensino privado conseguiu nestes mesmos anos. Funciona aqui o marketing negativo.
- Permito-me ter, por fim, reservas quanto ao estado moribundo da Internacional, que é aquele em que, de facto e mais do que aparentemente, se encontra. No entanto, o diz que disse que também marca este pequeno país dá-me conta da recente venda da SIPEC,SA - a entidade instituidora da UI - a uma instituição de respeito, ainda que por via indirecta: vendo-vos isto pelo mesmo preço que me venderam a mim. Mas no caso da UI, é bom notar que é um verdadeiro case study de sucessivos erros: desde a compra de um edifício enorme em sítio absolutamente inadequado ao fim do acordo com a Gama Filho. Já para não falar do ensino politécnico que integrava a Internacional, e que foi certamente o exemplo mais bem sucedido em Portugal nesta área, a começar por um curso de Gestão Hoteleira que dava cartas nesse tipo de mercado. Talvez por se tratar de uma sociedade anónima e não de uma cooperativa, as acções da SIPEC sempre foram vendáveis, mesmo quando o prestígio da UI era já nulo. Talvez isto explique a teoria defendida pelo Catalaxia, segundo a qual o pecado original do ensino superior privado português foi, sem dúvida, a imposição do modelo cooperativo para a sua organização empresarial.

Para além destas notas, considero como grave que as privadas tenham perdido de facto a oportunidade de se tornar verdadeiramente alternativa a um ensino superior público comprometido e também ele moribundo, nomeadamente através da (não) criação de bibliotecas de referência, nichos de mercado e actividade editorial. Passe a falta de humildade, orgulho-me de enquanto dirigente associativo, ter contribuído para lançar publicações com a chancela da UAL, e logo com um excelente volume do Professor Justino Mendes de Almeida versando temas de Cultura Portuguesa. E considero igualmente de relevo a falta de associação entre o ensino superior privado e as áreas da formação de médicos e engenheiros, sendo certo que se hoje não há médicos formados por universidades privadas tal não se deve à ausência de projectos apresentados junto da Tutela, o que de certo modo contraria a ideia deixada pela Janela para o Rio de que prevalecem os cursos de caneta e papel. Prevalecem, é certo, mas porque nunca o Estado deixou aos privados outra prevalência.
Talvez mais grave tenha sido, durante o início da década de 90, a ausência de aposta numa efectiva acção social escolar para os estudantes do particular e cooperativo. E neste caso, se as universidades terão a sua culpa, não é de menos referir que os seus estudantes são os principais responsáveis. Os dirigentes associativos do ensino superior privado, ao tempo mais preocupados com a solidariedade para com os "camaradas do ensino público" na luta contra a instituição das (justas) propinas, deram forte impulso às desvantagens competitivas do superior privado. Faziam política sem pensar na educação dos vindouros.
Inevitavelmente, os tristes números do (não) crescimento demográfico fizeram o resto, nos termos correctamente descritos pelo Bloguítica Nacional. Segundo dados da estrutura representativa das universidades privadas, a situação mudou, por factores demográficos, acentuados pela alta taxa de abandono escolar antes do 12ª ano (46%). Nos últimos três anos diminuiu em cerca de 20000 o número de alunos do ensino básico e secundário. Só neste último ano lectivo, de 2001/02, houve uma quebra de 7%, ou seja cerca de 3000 alunos, no número de estudantes que concluiram o 12º ano. Com esta tendência, prevê-se uma diminuição de passagens do 12º ano para o ensino superior de cerca de 16600 entre 1995 e 2005. Enquanto que o Norte manterá alguma estabilidade da população entre os 18 e 24 anos, a região de Lisboa sofrerá uma grande queda, da ordem dos 43%, seguida do Alentejo e Algarve, com quebras da ordem dos 30%. A região Centro mostra uma tendência intermédia, com uma diminuição de cerca de 23%.
Posto isto, resta-me dizer que se concordo com os problemas apontados pelo Catalaxia, não deixo de concordar com o estado menos pessimista do Bloguítica Nacional. Desde logo porque o valor das propinas do ensino superior público tende a diminuir a distância em relação às privadas, pelo que se estas verdadeiramente apostarem na qualidade e na formação dos seus quadros docentes, haverá certamente lugar à possibilidade de escolha em função da qualidade do ensino (e nada me diz, pelo contrário, que essa qualidade seja superior no ensino público). As propinas, esse .não custo., são afinal de contas o que determina a maior apetência pelas públicas. Se essa diferença se esbater, haverá lugar naquelas cabeças para pensar qual é de facto o melhor ensino. E apesar das dificuldades, é bom notar que algumas privadas apresentam números de respeito: Em 2003, a UAL conta com cerca de 6000 alunos e 420 professores - mais de 200 com o grau de Doutor e Mestre.
Não posso deixar de comentar uma nota que entretanto vejo que foi deixada pelo Virtualidades: a de "fechar vagas em cursos sem futuro". Sempre fui contra esta ideia. Não devemos tomar os estudantes universitários como uns rapazitos que não sabem ao que vão. E se não sabem, deviam saber. Se não há empregos para os licenciados em História ou em Filosofia, será que o melhor caminho é fechar a porta ao acesso a esses cursos? E se eu os quiser tirar por mero prazer pessoal e intelectual, ainda que disposto a pagar a propina e não arranjar emprego? Estou inibido? E pergunta ainda o Virtualidades: Se precisamos de 1000 médicos e 10 professores, porquê formar 1000 professores e 10 médicos? E digo eu: porque não formar 1000 professores e 1000 médicos? Mal não faz, que o saber não ocupa lugar.
Para uma outra oportunidade deixo a pergunta, pertinente, do Bloguítica Nacional: Faz sentido a intervenção do Estado como fornecedor de ensino superior? Lá liberal eu não sou, mas que esta pergunta, na espuma dos dias, dá que pensar... dá.

(parece-me oportuno dizer que estudei em quatro universidades: no âmbito da licenciatura, frequentei a Internacional e a Autónoma . onde me licenciei e até tive este simpático senhor por professor; no âmbito do ensino pós-universitário, passei por duas públicas, a de Direito e a de Letras de Lisboa. A bem da verdade devo dizer que se a de Letras me deixou boa impressão, nunca vi coisa tão manhosa como a Faculdade de Direito, a começar por copianços inacreditáveis em qualquer privada. Curiosamente, os privados tinham melhores notas sem usar os métodos que usavam os da casa. Acrescento ainda que em tempos fui convidado para dar aulas numa universidade privada, curiosamente por um conhecido blogger. Recusei o convite porque achei (e acho) que não nasci para isso, detesto falar em público, não tenho jeito... Sem falsas modéstias, o ensino superior estaria mais bem servido se todos assumissem estas debilidades)