Ainda os ecos de Paris

Caro Carlos,
O exercício da acção política visa, como é natural, a conquista do poder. Não o nego nem teria como o fazer. E nesse quadro, naturalmente que os partidos terão - ou deveriam ter - estratégias visando tal objectivo. A condição pessoal que referi antes deriva de variadíssimos factores entre os quais se contam, para o caso concreto, o facto de não ter qualquer ambição política (ponto primeiro), e o de não viver em França (ponto segundo). Isto para lhe dizer que um partido com a estrutura da FN - estrutura que conheço in loco apenas muito levemente - pode perfeitamente ambicionar o poder, independentemente dos meus pessimismos ou estados de alma mais ou menos constantes. A sua análise tem lógica indiscutível mas perde validade na medida em que, em França, o Front é um actor político de primeira linha em todas as eleições, sem que destas se excluam as presidenciais.
Quanto ao mais: diz o meu amigo que, agentes essencialmente "tribunícios", terão os partidos do arco não-constitucional (para lhes chamar alguma coisa) mais facilidade em fazer propostas de exequibilidade duvidosa (leia-se: demagógicas), visto que não estão (nem estarão, presume-se) no poder. Permito-me discordar. Se for ao arquivo (não o do blogue, mas o da História), verificará que Marine Le Pen, responsável FN pela região de Paris, pediu logo no segundo dia dos recentes acontecimentos criminosos levados a cabo por bandos de "jovens" nos subúrbios de Paris que fosse decretado o Estado de Emergência, sem que se tenha esquecido de alinhavar outras sugestões paralelas, das quais poderei referir a diminuição da escolaridade obrigatória. Naturalmente, as exigências foram rejeitadas com a habitual arrogância a que se votam as propostas da FN. Também naturalmente, quase todas elas foram adoptadas doze ou treze dias depois, com os resultados que se conhecem: a coisa deixou de ser notícia. Como é lógico, os franceses - que estão mais perto dos acontecimentos do que nós - sabem perfeitamente quem é que propõe as medidas que resolveram (momentaneamente) o problema, pelo que é admissível que, pelo menos os mais lúcidos, sigam o original e não a fotocópia (que ainda para mais está dividida).
Mas, meu caro Carlos, não abandonaria o tema do poder e do seu exercício por ideias "tribunícias" no que à França diz respeito, sem lhe referir o seguinte: aqui há uns anos - escrevo de memória e não sei precisar - a FN ganhou três câmaras municipais no sul do país. Das ditas, logo o sistema recuperou duas "na secretaria", sobrando a de Orange, dirigida por Jacques Bompard. A imprensa de então, ao jeito de um alka-seltzer, logo reforçou o lado positivo do feito: uma vez no poder, o dia-a-dia do seu exercício mostraria que as ideias demagógicas dos "tribunícios" só têm validade na oposição. Viu-se: Bompard renovou o mandato (aliás como Catherine Mégret em Vitrolles, um dos "casos de secretaria)...
Para rematar, que isto já vai longo. Não esteja o meu amigo tão certo de que Le Pen se apresente às eleições presidenciais - e não é por questões de idade. Como saberá por certo o Carlos tão bem ou melhor que eu, o sistema eleitoral francês foi traçado nas melhores faculdades de engenharia, todo ele desenhado à medida dos resultados da FN. No caso concreto - já aqui o escrevi há meses, aliás - é necessário que quem se queira apresentar a votos reúna 500 assinaturas de eleitos nacionais ou locais em exercício - uma moda que vai alastrando pela Europa, diga-se em abono da verdade. Ora, já em 2002 Le Pen esteve até à última, como se costuma dizer, para reunir as tais 500 assinaturas. Lá as conseguiu, que apesar das ameaças dos caciques regionais da direita curva, parece que ainda havia, à data, 500 democratas em França. Atendendo ao facto - é sabido que tão grande número de democratas constitui um perigo para a democracia... - entendem os mais altos membros do Estado que é urgente elevar a 1000 (mil) o número de proponentes. De modo que é como lhe digo, a coisa está difícil. Ao contrário, se em França ainda existirem 1000 democratas, temos novo sismo à vista...


10 comentários:
Caro Pedro,
Acrescentei mais umas palavras ao nosso diálogo.
«(...) o sistema eleitoral francês foi traçado nas melhores faculdades de engenharia, todo ele desenhado à medida dos resultados da FN» - em particular o sistema maioritário, que conduz a que um partido com cerca de 15% dos votos em Legislativas não tenha um único deputado na Assembleia Nacional!
Gostas de donuts???
Pedro, como sempre, como não gosto de "falar" de si nas costas: http://quandooblogbatemaisforte.blogspot.com/2005/11/polmica-est-relanada.html
Um abraço.
Donuts?!
Donuts não, passarinhas sim.Gostos...
Excelente post, Pedro.
Um 'post' na linha da boa literatura de polémica, que se foi perdendo, pois é apenas acessível aos espíritos elevados.
A coisa está mesmo dando as últimas. Restar-nos-à uma segunda Revolução Francesa??
"...uma segunda Revolução Francesa??"
Outra?!
Já!?
Certamente, não era bem isso que estava previsto...mas acho que se pode arranjar qualquer coisinha :)
Passarinhas - PRESENTES!
Cuidado com a gripe...!
Legionário
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